AS INFELIZES DORES DO PRECONCEITO

Na música “A lista”, o cantor e poeta Oswaldo Montenegro vai elencando diversas situações que no passado eram importantes e que perderam fôlego no decorrer da vida, tornando-se umas supérfluas, outras grandes demonstrações de imaturidade e preconceito. “Quantos segredos que você guardava /Hoje são bobos, ninguém quer saber”.

Sem querer tirar a importância do fato de que a vida é constituída de fases imaturas, seguidamente olhamos para trás com cara de espanto: eu pensava assim? Eu era essa pérola preconceituosa? É claro também que nem todo mundo evolui e amadurece. Tem gente que se cola num erro aos 12 anos e vai com ele para o túmulo sem percebê-lo. A cegueira é glorificada todos os dias nos templos e na política.

A sociedade já deu importância pejorativa à virgindade, às mães solteiras, à cor da pele, ao gênero, à orientação sexual, à origem étnica; já desqualificou pessoas pelos seus empregos, pelos bairros em que moram, por suas opções culturais e políticas, por suas origens familiares. Preconceitos que até vão sendo superados por pensamentos e políticas públicas de inclusão, tolerância e respeito às minorias. Mas, de vez em quando eles voltam e viram discurso de sociopatas, arrebanhando uma pequena multidão de incautos e os que querem auferir alguma vantagem da violência. Todo mundo sabe, porém, onde a volta destes discursos acabam. Para quem abraça os retrocessos, resta o futuro onde vão ver que: “Quantos segredos que você guardava / Hoje são bobos, ninguém quer saber”.

Todo mundo é fruto de um caldo de cultura onde se banham os prazeres, mas também ódios e preconceitos. Necessidades pessoais, fraquezas longínquas e fracassos modernos às vezes nos levam a querer culpar a parte do mundo menos responsável pela nossa falta de competência. Nosso dedo indicador sempre aponta para o lado mais frágil. E os ditadores de plantão, pastores que apostam em rebanhos desgarrados da humanidade, contam com isto. Resta saber se sucumbiremos a eles ou aos nossos melhores sentimentos.

Deve ser dolorido chegar-se ao fim da vida e perceber que todo o preconceito que alimentamos e propagamos, não fez mais que afastar as pessoas. E que aqueles a quem tornamos infelizes pelo fato de não tolerarmos uma diferença que sequer nos dizia respeito, poderiam ter sido nossos amigos e nos ter feito felizes.

A vida, por ser já de antemão amarga, difícil desde a largada, deveria talvez nos ensinar que discursos de ódio por diferenças gratuitas não nos levam a nada. Não quer dizer que não haja condutas que não devamos lutar contra. Não quer dizer que não haja conceitos que não sejam abomináveis. Mas não deve ser tão difícil perceber e diferenciar os que segregam daqueles que agregam.

A poesia de Oswaldo Montenegro avisa, como toda grande poesia dos grandes poetas. Mas a surdez social é uma doença que leva gerações para ser curada. Sem contar as recaídas.

Cabe insistir com a mesma pertinência da maldade. Cabe insistir com a mesma força com que os preconceitos retornam. Cabe insistir com a veemência dos pacifistas de todas as épocas, de todos os tempos. Como clamam os injustiçados, os torturados, os expulsos de seus lares, os que geram a riqueza do mundo, mas não usufruem dela.

Por que as pessoas alimentam as dores do preconceito para tornar mais gente infeliz, é um mistério. O que sabemos é o que dizem os poetas: Que, feliz e esperançosamente, os pensamentos bobos, no futuro, ninguém quererá saber deles.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 24/11/2017

NOSSOS PIORES PESADELOS

O futuro a Deus pertence diz a sabedoria popular. Se é que vai haver um. Nas nossas divagações ficcionais sobre ele, explodem monstruosidades: Frankenstein, o Soldado Universal, o Exterminador do Futuro na impagável interpretação de Arnold Schwarzenegger. Para dizer só três. Anti-heróis frutos da ciência e da tecnologia cujas qualidades humanas como sentimento e ética, desapareceram.

O avanço científico está a nos dizer que a ficção em breve pode vir a ser real, como num romance de Júlio Verne e suas vinte mil léguas submarinas. Cada vez mais próteses funcionam. Cada vez mais se entende como o corpo humano funciona. Cada vez mais os interesses bélicos e econômicos namoram a pesquisa científica. Já há chips em moscas e baratas com fins de espionagem. Os caras são ninjas.

Há muitos passos ousados sendo dados neste campo. Em 2013 um projeto sobre o cérebro recebeu um financiamento de um bilhão de euros da Comunidade Europeia. Imaginemos um chip que bloqueie ou libere neurotransmissores ao seu bel prazer. Que interfira nos sentidos, nos sentimentos e desejos. O potencial é bombástico e infinito.

Conforme especula Yuval Harari: “… um cyborg eternamente jovem que não procria, não tem sexualidade, que consegue interagir e compartilhar com computadores, que não tem raiva, medo…” E nós também podemos especular: que tipo de sentimento, que tipo de desejo um ser assim pode desenvolver? Estaríamos à beira do super-homem ou dos piores pesadelos da ficção científica?

No andar desta carruagem, a própria palavra “humano” pode mudar de sentido. E que uso farão de saber tão devastador as ideologias, os governos, as religiões?

Parece, de fato, muito assustador. Provavelmente nunca, em toda a história da humanidade, será tão importante participar politicamente do que nos próximos 100 anos. As decisões que serão tomadas e que vão mudar, não só o mundo, mas o conceito de ser humano, deverão ser as mais democráticas possíveis. Para que o maior número de pessoas possa ter a consciência do que, como pergunta o escritor judeu: O que queremos ser e no que queremos nos transformar?

Porque a transformação, lenta e gradual, já começou. E, afinal, inteligência sem consciência representa um caminho sem volta ao inferno.

A interferência da Inteligência Artificial na vida humana dá seus primeiros passos setenta mil anos depois da ascensão do Homo sapiens como o animal que vira deus. Hoje o Facebook, com programas e algoritmos complexos, baseado nas postagens das pessoas, já consegue traçar perfis bem razoáveis das ideias, gostos e valores de seus usuários. Mapas políticos e ideológicos já podem ser intuídos. O Facebook nos conhece melhor que nós mesmos. O que se fará com isso, nem imagino.

Pelo sim, pelo não, há um caminhão de cientistas que afirmam que o cérebro não “pensa” da mesma forma que o computador e que tentar “casá-los” é uma grande bobagem e que tudo é mero teatro para angariar patrocínio.

De qualquer forma, o futuro a deus pertence, seja lá que deus e que futuro sejam. O velho Olimpo grego parece uma premonição com seus deuses humanamente insatisfeitos e irresponsáveis botando terror, terror que sai dos livros e das telas para se transformar em nossos piores pesadelos.

E, se por acaso, você vir por aí alguém parecido com o Schwarzenegger, pelo menos desconfie.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 19/11/2017

QUANDO TEU CORAÇÃO

Quando teu coração

pegou na mão do meu e foram voar

imaginei um mundo.

Pensei ser teu abrigo

e tu o meu

pensei em dançar

contigo

tu e eu

no assobio de um passarinho.

 

Mas o amor não é um caminho

o amor é um voo desolado

que meu coração alçava

antes do teu ir embora.

 

Ainda flerto com os espaços vazios

os cios

da aurora

meu labirinto-ninho

que é pousar no nada

Sozinho.

 

 

Antologias e coletâneas

Sempre é importante participar de antologias e coletâneas. Orgulho-me de todas. Em 1994 participei de duas. Do Concurso Literário Felippe D’Oliveira, da cidade de Santa Maria, com o conto “Um dia a lua cai” que tirou primeiro lugar e do livro “Contos que vêm de onde?” publicado pela Editora Unisinos, que comemorava os 25 anos da Universidade.

Em 1995, a cidade de São José dos Campos publicou duas antologias. Uma de contos e uma de poesia. Participei das duas. Da X Antologia Poética HELIO PINTO FERREIRA, e da VIII Antologia de Contos ALBERTO RENART com o conto “Uma angustiada espera”.

Mais tarde, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul publicou duas antologias poéticas. Ambas organizadas por Dilan Camargo. Uma em 2001 e outra em 2013. Nas duas tive poemas publicados.

Devo dizer que todas estas publicações me fizeram ser feliz com elas. Através delas, a Literatura me fez pertencer ao mundo, ao meu mundo, que é este, o mundo das palavras.

OS VIOLINISTAS

Quando fazia suas viagens para escrever seu excelente “Armas, germes e aço”, surpreendeu ao escritor Jared Diamond que havia na Namíbia uma rua chamada “Goering” numa homenagem a Heinrich Goering um dos líderes da colonização alemã daquela parte da África. O impressionante é que esse Goering foi um dos responsáveis pelo primeiro genocídio do século XX, o genocídio dos Hereros, povo que se revoltou contra a colonização alemã.

Ocorre que nada há de surpreendente em haver uma rua com este nome lá. A coisa mais natural do mundo é no fim das contas admirar nossos algozes. A maioria dos povos dominados acabaram por tomar como sua a cultura, os valores, as crenças daqueles que os dominaram e os oprimiram. É só olharmos para um exemplo: o terno e a gravata. Fazem parte da vestimenta “séria” e “elegante” em praticamente todo o planeta.

Nossa tendência em esquecer as maldades que nos são infligidas vem de casa. Todas as famílias tendem a por uma pedra sobre suas desavenças, suas torturas físicas e psicológicas e sobre as injustiças entre quatro paredes. Por fim, este comportamento acaba se transferindo para a sociedade e para a História.

O grande mal deste comportamento, esse de esquecer o que de mal nos foi feito, permite essa verdade filosófica: a de que a história sempre se repete.

O renascimento da intolerância, do fundamentalismo religioso e dos movimentos moralistas deviam nos causar horror por todo mal que já foi feito em seu nome. No entanto, não olhamos para trás. E, mais adiante, teremos que admitir que foi um grande erro. A divisão maniqueísta entre as pessoas, taxando uns e outros de mocinhos e bandidos de acordo com seus gostos, cores e amores, vai acabar em tragédia. O Estado Democrático está dominado pela mão pesada da ignorância e da violência.

Lembro bem do livro “Os violinistas” de Jurgen Mäss. Nele, dois meninos criam-se juntos estudando violino. São amigos apesar das diferentes origens. A música os une. Vão juntos para a orquestra de Berlim às vésperas dos nazistas tomarem o poder. Até que um deles, Carl, entra para a juventude hitlerista.

Vitimado pela lavagem cerebral do Fürh, Carl logo começa a ver no amigo, cujos pais são trabalhadores de fábrica e ativistas sindicais, os “defeitos de sua classe”. Incentivado pela organização e apoiado no sentimento de maior número, Carl começa a perseguir Heinz. As calúnias acabaram por retirar Heinz da orquestra. E a loucura vai num crescendo psicótico até o desfecho, quando Carl invade com a turba a casa da família de Heiz e, em êxtase, confisca seu violino e o incendeia no meio da rua.

Uma das frases marcantes dita por Carl: “a tua gente não merece tocar as músicas que a nossa criou”!

Não sei se o Brasil caminha exatamente para uma coisa assim. Mas é preciso dizer que a História, a Literatura e a Cultura estão repletas de avisos. Se escolhermos este caminho, o do messianismo político e da intolerância será uma opção consciente. E é obrigação de todos fazer estes alertas.

Ou deixamos tudo por isso mesmo, e damos logo nome de rua para o coronel Brilhante Ustra e nome de museu para o MBL.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 03/11/2017