ALGUMAS PALAVRAS

Neste post, trago o que já foi dito sobre os livros “Um dia a lua cai” e “Rapsódia em Berlim” e “Bárbaros no Paraíso”, em momentos muito próximos aos seus lançamentos. Comentários de Paulo Hecker Filho, Luiz Antônio de Assis Brasil, Antônio Holfeldt, todos eles no Jornal RS de 1995. Eduardo Lanius no Jornal do Comércio, em outubro de 2003 e Oscar Bessi Filho na revista virtual Aplauso Brasil em 2006.

Bons e inesquecíveis momentos.

 

VENDER A ALMA AO DIABO

Estes comércios entre o homem e o diabo existem na Literatura há séculos. É um imaginário religioso cuja presença na arte a faz ainda mais fantástica. O “Fausto” de Goethe é um dos melhores exemplos, mas não o único. E nestas histórias, o diabo aceita várias moedas. Gosta principalmente de almas. E o vendedor vende o que tem. Principalmente sua própria alma. Mas, às vezes, muda de moeda.

Em 1872 o escritor suíço Gottfried Keller publicou vários contos, um dos quais se chamava “A virgem e o diabo”, em que o protagonista promete a própria mulher ao diabo em troca de manter sua fortuna que gastava em obras de caridade. No final, com a ajuda da própria Virgem Maria, não entrega a “mercadoria”. Trair o diabo, só com parcerias de peso.

Vender-se ao diabo é um símbolo. O símbolo de alcançar o inalcançável, o difícil, a felicidade e a fama momentâneas ou a vida eterna. Sempre estamos insatisfeitos com o que temos e somos. E sempre há alguém disposto a vender-se ao vilão na ânsia de que dê mais certo do dar-se ao mocinho. Ainda mais quando ambos não existem.

Vivemos um tempo – o mesmo tempo há milênios – em que, para alguém, a gente tem que se vender. Para uns que se dizem do bem, via dízimo, e para outros, que se assumem do mal, via alma. E há os malandros, que arrecadam os dízimos, mas não entregam. O personagem de Keller ofereceu a esposa. O diabo até aceitou, mas no fim também não levou, apesar de ser escolado na arte de passar a perna.

Quem leu esta crônica até aqui talvez sussurre para que ninguém o ouça que pode ter sido um grande negócio o diabo ter perdido a proposta. “Fosse a minha, logo tomaria conta do inferno. O diabo ia perder todo seu domínio.”

Outro leitor talvez esteja se perguntando: “Como falo com o diabo?”

A Literatura faz juízo de valor das moedas de cada um. Há quem considere a alma um valor máximo, outros o amor. Outros, hectares de terras. Nós, do terceiro milênio, bitcoins e apartamentos em frente ao mar de Copacabana. Já Keller, uma esposa.

No conto em questão temos que levar em conta que o autor Gottfriend Keller nunca casou. Nunca teve uma parceira, uma cúmplice. Sua vida amorosa se resumiu a amores não correspondidos e prostitutas. Todas as mulheres pelas quais se apaixonou lhe deram um rotundo “não”. Também estava muito próximo da Inquisição que mal havia acabado e talvez pensasse em mulheres como bruxas. Neste caldo todo, criou um personagem que considerou a mulher o melhor que tinha a oferecer, e depois lutou para não entregar.

Nós, que nunca batemos na porta do diabo e nem ele na nossa, em verdade dizemos: nenhum de nós venderia nosso grande amor. E se tivéssemos que vender, por conta de desventuras que pudessem nos custar vida ou morte, como todo bom salafrário, não entregaríamos. Diríamos ao diabo: carimba por “12” e manda pro Serasa, mas ela tu não leva!

Enfim, tudo é Literatura. A realidade e a fantasia. E sermos capazes de nos ver nela é que faz da vida esta riqueza de não estarmos caminhando somente sobre a terra, mas também sobre as nuvens.

Se você não acredita nisso, de que a vida é o que ela é, mais aquilo que a gente imagina que ela seja, mais aquilo que nem nos passa pela cabeça, pergunte ao diabo. Ou à sua mulher. Os dois sabem.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 15/12/2017

O DIA EM QUE O AMOR MORREU

Eram quatro da manhã. O telefone tocou. Tinham jogado um travesseiro sobre ele na hora do sexo. O som saiu abafado. Carlos não acordou. Deise sim.

–Oi? – atendeu quase sem voz.

– Chama o Carlos, disse uma voz impositiva no outro lado da linha. Uma voz feminina.

– Ca… – Deise chegou a dizer, mas não foi até o fim. – Olha, ele tá dormindo…

– Não quero saber, disse a voz impositiva. Chama ele agora!, e enfatizou a palavra “agora”.

Entre o sono e a vigília, Deise fez o que a mulher mandava. Sacudiu o marido e disse: – Carlos, é pra ti.

Carlos virou-se e pegou o telefone. Ainda disse: – que merda é essa a essa hora?, quando ouviu a voz: – Quero te ver. Vem aqui! – E Carlos acordou de vez.

Sentou na cama. Um filete de suor começou a escorrer desde a testa. – Oi? – respondeu.

– Vem aqui agora ou vou aí.

Carlos colocou o telefone no colo. Olhou para Deise e pensou: não era um sonho. Não era um filme destes em que o protagonista sabe o que fazer. Não sabia. Deise também acordou. – Que foi, Carlos? Quem é?

– Vou ter que sair. – Foi quando Deise acordou definitivamente.

– Como sair, Carlos?

– Sair, Deise. Sair! Sair! – E já foi levantando, nervoso.

– Quem era no telefone?

– Volto mais tarde.

– Se tu sair agora, não vai mais me encontrar aqui – ela disse levantando também.

Ele pensou um pouco. Depois escolheu: vestiu uma roupa , crispou os lábios com quem não tem o que fazer e saiu.

Deise ficou sozinha. Furiosa, derrubou mala do armário, gritou, jogou roupas dentro, chamou de “aquela puta”, vestiu a primeira calça que encontrou, a primeira blusa. Titubeou em frente à porta e retornou. Foi ao quarto dos filhos dele, que criava como mãe e deu uma olhada. A última. Foi quando as lágrimas tomaram o lugar da dor. A fragilidade, o lugar da força. A mágoa, o lugar do perdão.  Não podia voltar atrás e saiu.

Eram quatro e trinta da manhã quando se sentou num dos bancos da Praça Rui Barbosa. Não podia acordar parentes; a mãe ou a irmã. Tinha vergonha. Tinha medo. O ódio atou um nó em sua garganta que prendeu o choro. O amor foi escorrendo entre seus dedos e por mais que abrisse as palmas das mãos para segurá-lo, ele escoava. Cada lembrança, uma mágoa. Não tinha volta. Pensou em ir a um hotel, mas a rua vazia, a praça vazia, a vida vazia lhe dava forças para ficar ali sentada, esperando o dia amanhecer.

Quando o sol raiou bateu à porta da casa da mãe. Ainda tenho um quarto? Perguntou. A mãe disse sim. Mas ela própria não respondeu as perguntas que a mãe fez sobre a hora, sobre a mala, sobre a cara de quem não dormira. Só respondeu quando a pergunta sobre Carlos. – Tá com a Ane!

Deitou na cama antiga e abraçou o travesseiro. Pensou que podia ser criança outra vez. Mas não era. Pensou que o amor não nasce nem morre de uma hora para outra. São como a vida. Nascem aos poucos, morrem aos poucos. E agora tinha que matá-lo. Angustiada, levantou e foi se sentar em frente à janela iluminada. Seu amor fugira como fogem os passarinhos. Escapam das mãos da gente e saem sem rumo pela primeira luz que encontram e nunca mais os vemos.

Era dia oito, oito de dezembro. Dois mil e dezessete. O dia em que Deise enterrou seu amor ainda vivo na mesma luz da janela pela qual ele voara.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 08/12/2017

A NOVA GERAÇÃO DE PROFESSORES

No meu tempo de aluno tive grandes professores. Os melhores da época. Minha infância e adolescência, se foram enriquecidas por uma vida difícil (e o vejo hoje), também foram pela qualidade dos meus professores. Cada um deles modificou minha vida para melhor, à sua maneira. Apesar das diferenças de cada um, eles tinham uma qualidade comum: eram sábios e queriam dar o melhor de si aos seus alunos.

Hoje acompanho de longe, mas tenho visto uma nova safra professores que orgulharia a geração anterior. Até porque creio que cada pessoa é também fruto da sociedade que o cria. E a cidade, apesar de todos os percalços e dificuldades por que tem passado, ainda consegue formar bons mestres. Mestres sonhadores que querem dar ao mundo o melhor de si.

Há poucos dias vimos no Ibiá o prêmio da professora Daniela Heckler com seu projeto “Arte na escola”. Justo no ensino infantil, um momento sui generis do ser humano. Kipling, que escreveu “Mogli, o menino lobo” já o afirmava: “Deem-me os seis primeiros anos de uma criança, e podem ficar com o resto”.  Se há o que fazer, deve-se começar cedo.

Outro projeto de destaque é o de inclusão e construção da autoestima de crianças negras, encabeçado pela professora Monaliza Furtado através da leitura de autores negros. Finalista do Prêmio RBS de educação, vai trazer bons ventos à educação brasileira.

Resumida, eis nossa educação municipal. Num mundo cada vez mais difícil, a necessidade básica é criar condições para que a meninada avance. Dificuldades serão encaradas com mais coragem e determinação por crianças fruto de projetos e de processos mais humanizados.

Nesta linha, temos os alunos que vencem olimpíadas de matemática; as feiras de ciências cujos projetos levam aos Estados Unidos, todos orientados por professores dedicados, que querem dar o melhor de si aos que querem aprender. Não existe uma “cidade das artes” sem antes haver uma “cidade da educação”.

E sem desconsiderarmos os professores e alunos que não ganham prêmios, mas que fazem seu papel tão bem quanto e que são tão importantes quanto.

Uma sociedade que forja tanta gente boa, em tantos setores diferentes, com tantas qualidades únicas, há tantas décadas, não é uma sociedade qualquer. Montenegro é um criadouro de inteligências. E se hoje, o mar revolto do momento leva o país à deriva e nós com ele, temos estas pessoas que não se entregam; as apostas únicas possíveis de êxito. Se nossa elite dirigente apodreceu, não há saída fora das novas gerações.

Daniela Heckler, Monaliza Furtado e tantos outros professores que fazem a diferença no dia a dia, os que contagiam seus alunos com a curiosidade do saber, que geram projetos científicos, culturais, artísticos; que embebem as crianças de autoestima, de alegria, de paz, de crença em si e no futuro, são estes que precisamos. Estes que os governos massacram, são estes os que precisamos. Estes que a sociedade ignora, são estes os que precisamos.

Se muitos arrefecem, perdem o ímpeto, a motivação, não há como condená-los. A estrutura moderna do país não quer professores motivados. Mas se se motivam mesmo assim, há uma revolução. Escondida na balbúrdia da sala de aula: há uma revolução.

Balzac escreveu: Maldito daquele que não clamar no deserto por pensar que não será ouvido. Daniela, Monaliza e tantos outros estão clamando. Estamos no deserto, mas estamos ouvindo vocês.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá do dia 01/12/2017

ANTE TEU CORPO

Sou um vândalo ante teu corpo

Teu corpo-taça

Onde bebo meu desejo e o teu

Teu prazer e o meu

 

sonâmbulo

em minhas mãos

Tudo que é teu se despedaça

Inclusive eu

 

ando na noite sem fim

no vago vácuo

entre o teu não

e a tensão

do meu sim

 

o copo com nossos sonhos está vazio

e meu coração

porque ninguém nunca foi alguém

Sem um corpo estatelado

no cio.