O ANO EM QUE FAREI SESSENTA ANOS

As portas do tempo nunca se fecham. O ano em que farei sessenta anos escancarou-se diante de mim. O tempo é um sentimento. Um sentimento de perda, de abandono. Tantos já nos abandonaram. Avós, pais, tios, primos, amigos, épocas. Tudo fica para trás, menos ele, o tempo. E eu, tantos já abandonei. Em breve, outros mais. Viver é a arte de partir. Mas também de ver a vida voltar. Vou ser avô, olhem só!

Dois mil e dezoito se anuncia um ano louco. Um ano em que um psicopata, cujo nome nem se pronuncia, pode ganhar a presidência do Brasil sob o argumento da morte. Uma doença grave se abateu sobre nós. As mais negras nuvens da infâmia voltam a nos assombrar como monstros da infância. O tempo passa, mas o terror sempre volta.

Independentemente destas atrocidades, em dois mil e dezoito farei sessenta anos. Mais um velho a carregar as estatísticas negativas da Previdência, apesar de eu continuar trabalhando. Alguns dos meus pares debocham desta minha insistência com o trabalho. Não compreendem que venho de um tempo em que não trabalhar era um conceito pejorativo e que comigo funciona a fórmula: quanto menos tempo para fazer, mais faço. Sei que tornar-se inútil é um conceito natural e irremediável. Mas o capitalismo incorporou a inutilidade de forma imediatista. Mas prazo de validade é para lâmpadas, para uma caixa de remédios, mas não para uma pessoa. Não vou negar que a inutilidade chegará, mas vou adiá-la todos os dias por mais um minuto.

Fazer sessenta anos é um símbolo forte. Há quem creia que ficar velho nos dá sabedoria. Bobagem. Ficar velho só dá velhice e dores. Conheço várias pessoas que não aprendem nada com o passar dos anos. Algumas ficam ainda mais estúpidas. Portanto, sou só um cara que vai fazer sessenta anos. Nem mais, nem menos.

E a velhice não nos inocenta. Temos um olhar benevolente com os velhos. De pena, de dó. A fragilidade da velhice nos acriança. Mas acriançar-se faz com que as pessoas se esqueçam do que foram, das maldades que perpetramos, dos nossos erros e injustiças. A velhice não é salvo conduto. Um salvo conduto se há algum, é nossa humanidade, repleta de erros, injustiças e maldades, o que é da nossa natureza. Ser gente é estar sempre na linha tênue entre o bem e o mal, dependendo dos interesses. E quando se trata de interesses todos são egoístas e sempre faremos algo de mau ou de errado na vida em nome deles.

Nossos erros, contudo, não nos torna necessariamente um demônio a ser execrado, um bandido para as masmorras, uma bruxa a ser queimada numa fogueira. Errar é tão humano quanto ser bom. E vou repetir o que todos já sabem: conviver com erros, com erros graves, não é nada fácil. Remoê-los na solidão da noite sem conseguir exorcizá-los; sem conseguir o nosso próprio perdão, não é fácil. E todos têm muitas coisas que não se perdoam! Todo mundo tem motivos de arrependimento.

Nos fins de ano, cada um lava sua roupa suja na cabeça. Promete coisas incumpríveis a si mesmo e jura em falso fidelidade às suas ideias de mundo. Há um grau de hipocrisia em cada uma dessas atitudes. Um grau sério, diga-se!

Enfim, em dois mil e dezoito farei sessenta anos. Não é provável que daqui em diante eu seja diferente do que sempre fui. A não ser naquilo que a natureza ordena que eu seja e contra o qual tudo que eu tente será estéril ou estúpido. Como seguir receitas de gurus ou religiões para me tornar uma pessoa que nunca fui. É uma deslealdade com a vida pedir perdão depois de velho. É preciso pedir sempre. Envelhecer, por si só, não nos absolve de nada . Nem significa tornar-se aquilo que nunca se foi.

Vai ser um ano punk! Vou ser avô, olhem só. Das muitas coisas loucas, um louco pode ser presidente. Mas eu, no fim da vida, só quero ser aquele que sempre fui: o que viveu para contar.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 05 /01/2018)