A ESTRANHA MORTE DO VELHO JARDELINO

No final dos anos 1950, o então jovem e inédito escritor André Giordanno publicou seu primeiro conto em jornal. Chamava-se “Meu tio Antônio”. Poucos dias depois foi assassinado. Um crime nunca resolvido. Houve quem dissesse que foi por causa do conto.

Há alguns anos (2012) visitei sua cidade para uma palestra numa escola. Acidentalmente o descobri na biblioteca pública, nestas pesquisas em jornais velhos que adoro fazer. Desde então, negocio com a família acesso aos seus originais que, felizmente, foram preservados.

Seu acervo não é grande, posto que morreu muito jovem. Havia um caderno de contos e um diário. Planejava publicar um livro cujo título seria “Dossiê de Iniquidades” onde mostraria os bastidores sórdidos de sua cidade.

Abaixo, segue o conto “A estranha morte do velho Jardelino”.

 

“Não mais que assim, do nada, um homem termina. Acaba. Morre. Era só um homem, um homem comum, o velho Jardelino. O que mais lhe restaria senão debandar da existência da forma serena como parece a todos ao redor do esquife? A um homem quase nada resta se os anos lhe tomam as pequenas coisas que ama, que por amar profundamente não eram pequenas coisas, mas este julgamento morre junto. Não é menos verdade dizer que o velho Jardelino permitiu, sem luta, que levassem algumas de suas preciosidades. Ajudou que levassem. Por desleixo, por desassossego, por vingança, que fosse! Ajudou! E por deixar, as perdeu. Não eram mais suas. Se é que algum dia foram. Leona recebia a todos com uma dor resignada. “Morreu dormindo. A melhor das mortes que Deus pode conceder”. No velório, nem todos que chegam, passam da porta para rezar sobre o cadáver. Sempre há os que só observam de longe. Sempre há.

É possível que se quisesse uma viúva mais desesperada. Mais lacrimosa. Mas os anos, os desgastes, as circunstâncias do dia-a-dia podem muito bem extrair sentimentos ou adicionar forças donde se pensou não mais existirem um ou outro. E, é claro, doutor Antero tinha palavras de conforto. Médico da família há muito, já alertara sobre a possibilidade do velho Jardelino não vingar o ano em curso. Mesmo anos em curso anteriores. Leona cochichou ao ouvido do doutor: “Que bom que vieste. Ele estava bebendo tanto, tanto. Tudo que passei nessa vida. Tu sabes. Tudo que perdi por ficar ao seu lado.” Doutor Antero e seu abraço fraterno. Doutor Antero.

Mas não Doroti. Doroti foi copiosa em lágrimas. Farta em desespero. Trinta anos de casa a tornaram dela. E de todos ali. Não eram ainda quatro horas da manhã quando Leona bateu à sua porta. Se a urgência a tirou da cama com eloquência, a cena a calou. Mas, recuperada do susto, Doroti foi frenética, eficiente e fiel. Primeiro baldes de água para sumir com o vômito de um homem desesperado. Um vômito que desenhou pela casa a caminhada de uma inominável agonia; agonia de alguém sequer pode gritar por ajuda. De qualquer forma, se tivesse gritado quem o ouviria? Por detrás das portas havia olhos, mas nenhum ouvido. Sempre há os que só observam. Sempre há.

Quando chegou, Doroti encontrou um mundo novo; o mundo de um homem contorcido e sujo de sucos gástricos e dejetos intestinais. Mas em uma hora, ou pouco mais, limpou-o, trocou suas roupas fétidas e o colocou sentado no sofá, como de resto fizera inúmeras vezes, quando ele caía bêbado na sala, ou na cozinha. Sempre o fizera enquanto estava vivo. Agora que estava morto, Doroti fez o obséquio de repetir esta sua rotina. Deus sabe que o velho Jardelino já estava morto bem antes de morrer. Desde a morte de Isabel, a primogênita. Na época, Leona e doutor Antero deram-lhe a grave notícia. Doutor Antero o abraçou e consolou suas lágrimas de velho bêbado que perdia a filha. E agora assinara seu atestado de óbito: morte súbita. Causa: alcoolismo. Doutor Antero.

Isabela, filha querida. O velho Jardelino lhe dizia ao ouvido: não case com este traste. Ele não presta! Ela casou. Ele viu a filha infeliz. Depois abandonar o casamento. Depois ir embora de tudo e todos. E enfim, morrer de uma maneira tão estúpida e tão distante que quase não o deixaram chorar por ela.  Ele só podia observar, velho que era, Isabela sumir de si mesma, depois sumir dele, até lhe restar somente na memória, de onde a observava, pois é natural haver o que só se pode se olhar de longe. Sempre há.

Quando Doroti foi para casa, pelas vinte horas, o velho Jardelino bebia no sofá da sala. Como todos os dias e todas as noites de tantos anos. Leona, bem vestida e perfumada, disse: vou sair, mas não demoro. Que ele podia ficar um pouco sozinho. “Tranque bem a porta!”, recomendou a ela. Para ele, boas palavras. Volto logo, meu amor. Fique com Deus. Com seus olhos miúdos ele a observava. Olhos que, de tão miúdos, de certo não diziam nada. Mas talvez Doroti, e só ela, os ouvisse. Talvez só ela soubesse o que eles viam. Sempre há quem vê o que não está visível. Não! Não os olhos miúdos do velho Jardelino. Talvez outros. Porque sempre há.

O dia ainda não havia nascido quando Doroti perguntou pelo copo. Copo? Sim, o copo em que ele estava bebendo. Ah, sim, quebrou, pus fora. A última vassoura, Doroti esperou para passar quando levaram o corpo. Debaixo do sofá rolou um copo. Pôs a mão no peito e deixou escapar pelos lábios o ar de um pequeno susto. Doroti pegou o copo com cuidado e observou-o bem de perto. Sempre os que observam. Sempre há.

Colocou-o dentro de um plástico e o fechou nele, hermeticamente. Levou-o consigo e o guardou pelo resto da vida. Sempre há os que guardam as coisas para que alguém as observe um dia. Sempre há.”