AS LOUCURAS DA VONTADE

Este tipo de assunto nunca me levaria a escrever uma crônica se não tivesse lido algo muito louco num livro de Mário Vargas Llosa. No seu soberbo “Cartas a um jovem escritor” ele compara o fato de alguém querer ser escritor com o ato radical de alguém que quer emagrecer. Ou seja, quem quer escrever tem que se dispor a tudo. Então ele lembra o fato de algumas mulheres do século XIX que ingeriam larvas de solitária, o verme, para que o bicho as emagrecesse. Fui pesquisar no oráculo do século XXI, o Google, e achei esta e muitas outras histórias a respeito. Fato verídico e histórico.

O culto do corpo e da beleza não é de hoje. Os gregos meio que iniciaram isto fazendo estátuas com as proporções mais bonitas e dando valor à beleza, tanto à beleza plástica, às formas, como as artes de uma maneira geral. Daí que o belo ganhou um ideal. A elegância ganhou status. Essas coisas que vem de muito longe e nunca mais deixam de influenciar uma pessoa.

Mas o mote desta crônica não é beleza em si, e sim o que as pessoas são capazes de fazer para alcançá-la. E nem vamos falar de horas de exercícios, de placebos que mentem, de shakes que ludibriam, de anabolizantes que recriam um corpo falso, de remédios que para emagrecer que mexem no psíquico.

Também só vou mencionar um tal C. S. Lovett , um ministro evangélico, que escreveu um libelo contra a gordura chamado, numa tradução medíocre como é a minha: Socorro, Deus. O diabo me quer gordo!. Como disse a comentarista do livro, o diabo já não está mais somente interessado na alma, mas também no corpo. Haja tolerância com a ignorância.

Quero ficar mesmo é no fato de as pessoas ingerirem um verme, uma das coisas mais escrotas com que a natureza nos presenteou; um parasita que precisamos nos livrar à base de remédios, porque traz consigo um monte de problemas, em nome de um propósito profundo.

É para vermos até onde vai a vontade. Era isso que Vargas Lhosa queria chamar a atenção. O que somos capazes de fazer quando movidos por uma causa e a desejamos do fundo da alma.

Por fim, fiz uma varredura na internet para saber como as mulheres do século XIX faziam para se livrar do verme depois que chegassem ao peso desejado, e encontrei esta pérola: “A solução para desfazer-se d este animal era não menos tenebrosas do que tê-lo em si. Para começar tinha que deixar de alimentar o monstro interior. Depois pendurar-se de cabeça para baixo, com a boca aberta em frente a um prato de comida para que a solitária, atraída pelo cheiro, sair e procurar por sim mesma seu próprio sustente”.

Partindo do princípio que as Taenia solium não sentem cheiro nem tem olhos, este método aí está mais pra lenda que pra verdade. Imagino que, naquele tempo, sem vermicidas, o bicho ficava lá dentro por um bom tempo.

De qualquer forma, como metáfora das vontades humanas, este exemplo trazido pelo escritor peruano está perfeito. Quem quer ser alguma coisa na vida, mas quer ser meeeesmo, tem que ter a radicalidade daquelas que no século XIX engoliam vermes para emagrecer. Quem não quer correr os riscos de morrer ou de ser infeliz, não merece as alegrias de alcançar o nirvana.

Contudo, tenhamos sempre um plano B. Não deixemos que as loucuras da vontade dominem nossos objetivos. Não nos deixemos realizar na vida nem busquemos a felicidade ajudados pelo que pareça, ou seja, um verme. Há muitos deles por aí travestidos de virtude.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 02/02/2018)