ENVELHECER

Não espere de mim
mais do que fui
não espere por mim.

As horas se tornam
mais longas que os dias
e o passado não soterra
mais nada
sequer o nada.

Envelhecer é um ato solitário de andar
como quem não anda

como quem adia

outro ato solitário
de heroísmo

o de adiar
seu último dia.

Não espere de mim
mais do que pude
que nem eu mais
espero por mim.

A vida é uma música
que se canta antes do silêncio

um interlúdio do fim

uma espera adiada
uma voz se calando ao poucos

e mais nada.

A VIDA É TERNA

A vida é terna
e ternura é mais
que eternidade.

É saudade
o que resta partido
despedaçado no tempo
antes mesmo de se haver perdido.

Há uma doce tristeza
em perder-se o sentido
a certeza, o norte
um amor para sempre.

Perder
é a poesia da amargura
da alegria ressentida
que nos apodrece todo dia
na procura

de um sentido
e do encontro do insensato.

O absurdo
é o melhor retrato
que tiramos com vida.

A ESTRANHA MORTE DO VELHO JARDELINO

No final dos anos 1950, o então jovem e inédito escritor André Giordanno publicou seu primeiro conto em jornal. Chamava-se “Meu tio Antônio”. Poucos dias depois foi assassinado. Um crime nunca resolvido. Houve quem dissesse que foi por causa do conto.

Há alguns anos (2012) visitei sua cidade para uma palestra numa escola. Acidentalmente o descobri na biblioteca pública, nestas pesquisas em jornais velhos que adoro fazer. Desde então, negocio com a família acesso aos seus originais que, felizmente, foram preservados.

Seu acervo não é grande, posto que morreu muito jovem. Havia um caderno de contos e um diário. Planejava publicar um livro cujo título seria “Dossiê de Iniquidades” onde mostraria os bastidores sórdidos de sua cidade.

Abaixo, segue o conto “A estranha morte do velho Jardelino”.

 

“Não mais que assim, do nada, um homem termina. Acaba. Morre. Era só um homem, um homem comum, o velho Jardelino. O que mais lhe restaria senão debandar da existência da forma serena como parece a todos ao redor do esquife? A um homem quase nada resta se os anos lhe tomam as pequenas coisas que ama, que por amar profundamente não eram pequenas coisas, mas este julgamento morre junto. Não é menos verdade dizer que o velho Jardelino permitiu, sem luta, que levassem algumas de suas preciosidades. Ajudou que levassem. Por desleixo, por desassossego, por vingança, que fosse! Ajudou! E por deixar, as perdeu. Não eram mais suas. Se é que algum dia foram. Leona recebia a todos com uma dor resignada. “Morreu dormindo. A melhor das mortes que Deus pode conceder”. No velório, nem todos que chegam, passam da porta para rezar sobre o cadáver. Sempre há os que só observam de longe. Sempre há.

É possível que se quisesse uma viúva mais desesperada. Mais lacrimosa. Mas os anos, os desgastes, as circunstâncias do dia-a-dia podem muito bem extrair sentimentos ou adicionar forças donde se pensou não mais existirem um ou outro. E, é claro, doutor Antero tinha palavras de conforto. Médico da família há muito, já alertara sobre a possibilidade do velho Jardelino não vingar o ano em curso. Mesmo anos em curso anteriores. Leona cochichou ao ouvido do doutor: “Que bom que vieste. Ele estava bebendo tanto, tanto. Tudo que passei nessa vida. Tu sabes. Tudo que perdi por ficar ao seu lado.” Doutor Antero e seu abraço fraterno. Doutor Antero.

Mas não Doroti. Doroti foi copiosa em lágrimas. Farta em desespero. Trinta anos de casa a tornaram dela. E de todos ali. Não eram ainda quatro horas da manhã quando Leona bateu à sua porta. Se a urgência a tirou da cama com eloquência, a cena a calou. Mas, recuperada do susto, Doroti foi frenética, eficiente e fiel. Primeiro baldes de água para sumir com o vômito de um homem desesperado. Um vômito que desenhou pela casa a caminhada de uma inominável agonia; agonia de alguém sequer pode gritar por ajuda. De qualquer forma, se tivesse gritado quem o ouviria? Por detrás das portas havia olhos, mas nenhum ouvido. Sempre há os que só observam. Sempre há.

Quando chegou, Doroti encontrou um mundo novo; o mundo de um homem contorcido e sujo de sucos gástricos e dejetos intestinais. Mas em uma hora, ou pouco mais, limpou-o, trocou suas roupas fétidas e o colocou sentado no sofá, como de resto fizera inúmeras vezes, quando ele caía bêbado na sala, ou na cozinha. Sempre o fizera enquanto estava vivo. Agora que estava morto, Doroti fez o obséquio de repetir esta sua rotina. Deus sabe que o velho Jardelino já estava morto bem antes de morrer. Desde a morte de Isabel, a primogênita. Na época, Leona e doutor Antero deram-lhe a grave notícia. Doutor Antero o abraçou e consolou suas lágrimas de velho bêbado que perdia a filha. E agora assinara seu atestado de óbito: morte súbita. Causa: alcoolismo. Doutor Antero.

Isabela, filha querida. O velho Jardelino lhe dizia ao ouvido: não case com este traste. Ele não presta! Ela casou. Ele viu a filha infeliz. Depois abandonar o casamento. Depois ir embora de tudo e todos. E enfim, morrer de uma maneira tão estúpida e tão distante que quase não o deixaram chorar por ela.  Ele só podia observar, velho que era, Isabela sumir de si mesma, depois sumir dele, até lhe restar somente na memória, de onde a observava, pois é natural haver o que só se pode se olhar de longe. Sempre há.

Quando Doroti foi para casa, pelas vinte horas, o velho Jardelino bebia no sofá da sala. Como todos os dias e todas as noites de tantos anos. Leona, bem vestida e perfumada, disse: vou sair, mas não demoro. Que ele podia ficar um pouco sozinho. “Tranque bem a porta!”, recomendou a ela. Para ele, boas palavras. Volto logo, meu amor. Fique com Deus. Com seus olhos miúdos ele a observava. Olhos que, de tão miúdos, de certo não diziam nada. Mas talvez Doroti, e só ela, os ouvisse. Talvez só ela soubesse o que eles viam. Sempre há quem vê o que não está visível. Não! Não os olhos miúdos do velho Jardelino. Talvez outros. Porque sempre há.

O dia ainda não havia nascido quando Doroti perguntou pelo copo. Copo? Sim, o copo em que ele estava bebendo. Ah, sim, quebrou, pus fora. A última vassoura, Doroti esperou para passar quando levaram o corpo. Debaixo do sofá rolou um copo. Pôs a mão no peito e deixou escapar pelos lábios o ar de um pequeno susto. Doroti pegou o copo com cuidado e observou-o bem de perto. Sempre os que observam. Sempre há.

Colocou-o dentro de um plástico e o fechou nele, hermeticamente. Levou-o consigo e o guardou pelo resto da vida. Sempre há os que guardam as coisas para que alguém as observe um dia. Sempre há.”

A PAZ É UM LUGAR QUE NÃO EXISTE

O filósofo italiano Antônio Gramsci, nos anos 1930, mesmo preso e debilitado, não parava de produzir. Um general de Mussolini disse: precisamos fazer esta mente parar de pensar.

Não, não quero falar do fascismo que hoje nos assombra com suas aves de rapina.

Quero falar da paz. Da paz que não existe. Da paz que não existe porque estamos sempre pensando. Estamos sempre ruminando problemas, dissabores, ódios, amores, medos.

Estamos sempre bolando um jeito de sobreviver, de evitar a tristeza, de ser feliz. Sempre em guerra com nossa natureza, limitações, prazeres; sempre em luta por um mundo e contra aqueles que desejam outro. E este embate sem tréguas se trava na mente. Por isso, ela nunca para e não nos permite ter paz. A paz, só a alcança quem já desistiu.

Nesta luta, há vitórias e derrotas. Mas independente de vencermos umas e perdermos outras, em segundos, novas surgem. A constância desta batalha contra e a favor do mundo que a mente trava nos fragiliza. A busca pela paz se torna quase doentia. De vez em quando conseguimos momentos, poucos, onde a vida não é um roldão de pesadelos. Por isso os sorrisos raros.

Há aqueles que não se dão conta da batalha que estão travando. Há os que entregam nas mãos de outros seus dilemas e responsabilidades sobre o mundo e a vida. Há a ingenuidade, há a fé no que não é deste mundo. Há o casulo da infância em que muitos se protegem até a velhice. Nestes, os sorrisos são fartos. A mente também não para, mas, surpreendentemente, a paz lhes é fiel. Escudos a protegem e um pequeno paraíso ficcional parece tomar corpo e são felizes assim.

Para outros, no entanto, a realidade é uma máquina atroz moendo a carne, a sensibilidade, a beleza de tudo. E a angústia pede uma rota de fuga.

A jornalista científica sueca Karin Bojs afirma que humanos primitivos andavam centenas de quilômetros para celebrações em que a atração era a cerveja. Entorpecer-se sempre foi uma forma de suportar a crueldade da vida.

Estudos mostram inclusive que golfinhos pegam o baiacu somente para aproveitar-se de uma toxina com efeito narcótico que o peixe produz. Sabem até a quantidade de que precisam para dar “barato”.

A sobriedade é uma condição importante em sociedade. Ninguém quer um médico “cheirado” transplantando seu coração. Tampouco um soldado com um fuzil nas mãos com seu emocional “adulterado”. Mas o controle social da sobriedade é complexo. Tão complexo que o dinheiro dos ricos sem paz sustenta o tráfico e suas consequências também sem paz.

A verdade é que suportar a vida não é fácil. Então, se busca facilitadores.

Não quero com isso fazer apologia da drogadição. Quero dizer que a batalha contra ela é difícil justo por causa da condição humana. A consciência da nossa fragilidade não é fácil de suportar. E como disse lá no começo: a gente nunca para de pensar, e pensar nela.

Relembremos o poeta Charles Beaudelair:
“Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo
que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
Mas – de quê ?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.”

De certa forma, somos todos como o filósofo italiano Antônio Gramsci. Estamos presos, debilitados, mas não paramos de pensar. A paz interior é algo tão importante que há até um bordão religioso que a valoriza: Que o Senhor vos dê a sua paz!

Porém, como todos sabem, Ele não dá! A paz simplesmente… não existe.

(Crônica publicada no Jornal Ibiá de 02/03/2018)

OS SEM-FUTURO

No surpreendente livro “O dicionário kazar”, do escritor sérvio Milorad Pavitch, há uma pequena definição sobre um homem e seu futuro: Um homem deve cuidar para não andar tão depressa que seu futuro, com seu passo, não possa mais alcançá-lo. Uma corrida. O mais rápido perde.

O futuro é uma fixação doentia. Tudo que fazemos é para alcançá-lo, para torná-lo real já que ele é uma quimera. Em seu nome sacrificamos o presente e desconsideramos o passado. Inobstante, não há futuro sem queimarmos a lenha do presente na sua edificação. O capitalismo dá as regras: acumular no presente para garantir o futuro. Estudar no presente para se qualificar para o futuro.

Até o país em que vivemos, é um país do futuro e não do presente. Uma escola de samba estampou o golpista Michel como vampiro, caricatura de Nosferatu a sugar direitos dos pobres e frágeis como se fora sangue. Tudo para melhorar o presente de poucos e piorar o futuro de muitos.

No mesmo livro, há um personagem brilhante que fala numa língua, mas se cala em outra. No Brasil, o silêncio da maioria contra tantos desmandos, calou fundo numa outra língua: a das imagens e cores da arte dos morros do Rio de Janeiro; as vozes possíveis no momento.

O futuro, aquele pelo qual trabalhamos décadas, escorre feito um filete de sangue dos lábios sem cor do vampiro de plantão. Nosso futuro vai morrer por sangria sob o silêncio de outra língua, a das panelas.

Na página 87 do “Dicionário” de Pavich ficamos sabendo que “o caminho mais seguro para se chegar ao verdadeiro futuro (pois existe também um falso futuro) é ir na direção em que teu medo cresce”. Portanto, só há futuro verdadeiro se enfrentarmos o medo.

O futuro é uma ideia fixa, e também sacra. Temos isso conosco, de que tudo que é sacralizado tem aura divina. Quando Pavitch diz que “uma mulher sem bunda é como uma cidade sem igrejas” é a isso que se refere. Divinizamos a bunda feminina pelo desejo que inspira, pelo prazer que promete. E o futuro? Por que entregamos grande parte do presente para sua construção se nem temos certeza desse esforço virá o futuro verdadeiro? Se não estamos trilhando na direção em que nosso medo cresce e sim o caminho do gado ao brete?

É a Literatura pregando por parábolas.

Só o amor rivaliza com o futuro. Só o amor não pode esperar. “Ele a acariciava tão bem que a alma dela murmurava no seu corpo”. Milorad é um mestre! Amar é urgente. Para o amor pouco importa o futuro. O amor só constrói um presente. Como a vida, só se vive o presente. Como um espelho, só reflete o presente. Todos os espelhos que prometem o futuro, refletem antes tragédias para o presente. Conforme Milorad, “não se pode receber da verdade mais do que nela se investiu”. E assim, do futuro.

Se é verdade que “a paixão de ler é muito mais importante que a paixão de escrever” é porque ler cria mais mundos do que escrever. Porque ler gera mais futuros do que escrever.

O futuro parece uma miscelânea de assuntos desconexos, mas um cimento os une. O futuro se sonha acordado. Se tanto dedicamos do presente para que haja futuro; se querem nos roubar esse futuro que sonhamos, então na verdade estão nos roubando o presente, o sacrifício do presente, a paz do presente… o tempo presente!

Por fim, depois de nos roubarem o trabalho, a terra, a paz e a liberdade, farão de nós os sem-futuro. Zumbis que fogem de seus medos e os entregam para falsos messias e falsos heróis e, em nome deles, nos mataremos uns aos outros por uma migalha de… futuro.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 16/02/2018)

A ESTÉTICA DA CRUELDADE

 

“Pobre país, pois está enxovalhado (…) Junto com o sangue e as lágrimas, a imundície respinga nas ruas de suas cidades. O que era belo foi emporcalhado. O que era verdade foi apagado pela gritaria mentirosa. (…) A sórdida mentira usurpa o poder (…) Pobre país onde se instalaram os Cavaleiros do Apocalipse (…) Sua monstruosidade deverá ser idolatrada (…) Sua fealdade, admirada como nova beleza. (…) Reina a noite em nossa pátria (…) Onde quer que eles e seus capachos se apresentem, a luz se apaga e reinam as trevas.”

Klaus Mann em “MEFISTO” – Capítulo: O Pacto com o diabo. Pág. 156.

Quando os nazistas tomaram Budapest, alinharam judeus à beira do Danúbio. Mandaram tirar os sapatos, um artigo de luxo no inverno europeu, e fuzilavam para que caíssem no rio. Os casais, amarravam uns aos outros, mas só atiram num, de maneiras que o outro morria afogado. Hoje, em Budapest, há um símbolo desta ignominia em sapatos de bronze colocados à beira do rio.

Claro neste símbolo que a maldade humana não está unicamente ligada à busca pelo poder ou à sua manutenção. A matança de inocentes, a destruição moral ou física de quem sequer é um inimigo está mais ligada à crueldade gratuita, à psicopatia dos ressentidos do que, propriamente, a uma guerra entre forças equivalentes.

Está comprovado que a vitória do nazismo foi a vitória de rancorosos, daqueles que criam que os seus fracassos como pessoas estava ligado a um “inimigo” transcendental: os judeus.
Não é difícil transformar o ressentimento numa religião quando cremos que nossa condição social não é culpa das complexas relações históricas e econômicas, mas de pessoas individualmente, de instituições ou da cultura e da sabedoria de outros. A ignorância gosta disso: admitir que a ignorância é culpa de “alguém”. “Alguém” a quem possa apontar o dedo, pessoalizar e dizer: que gente “má”; vamos matá-los!

Logo estamos na linha de tiro, sem sabermos como nos elegeram, eu ou você, as pessoas más que os condicionaram à ignorância e ao fracasso.

Goebbels, o ministro da propaganda nazista, foi campeão nisso. Repetir uma mentira até que algo dela permaneça; de transformar pessoas comuns em inimigos do estado só por serem de uma etnia diferente, ou de terem uma ideia de mundo diferente.

É por estas iniquidades que o nazismo, e todas as suas formas menores de ação política e crueldades pessoais, não podem nunca ser dignificadas por qualquer forma de razão, por qualquer expressão de uma boa palavra. A iniquidade deve ser sempre condenada. Mesmo que seja pelo silêncio, pelo desprezo e pela desconsideração, o que, por fim, até ajuda a democracia.

Quando ignoramos o que representa o mal, como símbolo, quando não lhe damos respaldo intelectual ou midiático, estamos sim dando um passo em frente!

Às vezes a iniquidade, a violência perpetrada pelo ressentimento da ignorância, não está no perfilar de inocentes a serem metralhados. Mas no ataque à cidadania, à liberdade de expressão, à liberdade de participação política. Está no engano, na mentira, na chantagem. De igual forma, ações que não podem ser dignificadas. Nem por um sorriso. Nem por uma boa palavra.

Porque uma cidade, um estado, um país, devem ser construídos pela diversidade, pelo debate franco e livre, e não pela ação nefasta de nazis pós-modernos.

Sob pena de termos, um dia, sapatos de bronze alinhados nas barrancas dos rios brasileiros como forma de simbolizar este período negro em que estamos entrando.

 

(Publicado no Jornal Ibiá em 09/02/2018)

AS LOUCURAS DA VONTADE

Este tipo de assunto nunca me levaria a escrever uma crônica se não tivesse lido algo muito louco num livro de Mário Vargas Llosa. No seu soberbo “Cartas a um jovem escritor” ele compara o fato de alguém querer ser escritor com o ato radical de alguém que quer emagrecer. Ou seja, quem quer escrever tem que se dispor a tudo. Então ele lembra o fato de algumas mulheres do século XIX que ingeriam larvas de solitária, o verme, para que o bicho as emagrecesse. Fui pesquisar no oráculo do século XXI, o Google, e achei esta e muitas outras histórias a respeito. Fato verídico e histórico.

O culto do corpo e da beleza não é de hoje. Os gregos meio que iniciaram isto fazendo estátuas com as proporções mais bonitas e dando valor à beleza, tanto à beleza plástica, às formas, como as artes de uma maneira geral. Daí que o belo ganhou um ideal. A elegância ganhou status. Essas coisas que vem de muito longe e nunca mais deixam de influenciar uma pessoa.

Mas o mote desta crônica não é beleza em si, e sim o que as pessoas são capazes de fazer para alcançá-la. E nem vamos falar de horas de exercícios, de placebos que mentem, de shakes que ludibriam, de anabolizantes que recriam um corpo falso, de remédios que para emagrecer que mexem no psíquico.

Também só vou mencionar um tal C. S. Lovett , um ministro evangélico, que escreveu um libelo contra a gordura chamado, numa tradução medíocre como é a minha: Socorro, Deus. O diabo me quer gordo!. Como disse a comentarista do livro, o diabo já não está mais somente interessado na alma, mas também no corpo. Haja tolerância com a ignorância.

Quero ficar mesmo é no fato de as pessoas ingerirem um verme, uma das coisas mais escrotas com que a natureza nos presenteou; um parasita que precisamos nos livrar à base de remédios, porque traz consigo um monte de problemas, em nome de um propósito profundo.

É para vermos até onde vai a vontade. Era isso que Vargas Lhosa queria chamar a atenção. O que somos capazes de fazer quando movidos por uma causa e a desejamos do fundo da alma.

Por fim, fiz uma varredura na internet para saber como as mulheres do século XIX faziam para se livrar do verme depois que chegassem ao peso desejado, e encontrei esta pérola: “A solução para desfazer-se d este animal era não menos tenebrosas do que tê-lo em si. Para começar tinha que deixar de alimentar o monstro interior. Depois pendurar-se de cabeça para baixo, com a boca aberta em frente a um prato de comida para que a solitária, atraída pelo cheiro, sair e procurar por sim mesma seu próprio sustente”.

Partindo do princípio que as Taenia solium não sentem cheiro nem tem olhos, este método aí está mais pra lenda que pra verdade. Imagino que, naquele tempo, sem vermicidas, o bicho ficava lá dentro por um bom tempo.

De qualquer forma, como metáfora das vontades humanas, este exemplo trazido pelo escritor peruano está perfeito. Quem quer ser alguma coisa na vida, mas quer ser meeeesmo, tem que ter a radicalidade daquelas que no século XIX engoliam vermes para emagrecer. Quem não quer correr os riscos de morrer ou de ser infeliz, não merece as alegrias de alcançar o nirvana.

Contudo, tenhamos sempre um plano B. Não deixemos que as loucuras da vontade dominem nossos objetivos. Não nos deixemos realizar na vida nem busquemos a felicidade ajudados pelo que pareça, ou seja, um verme. Há muitos deles por aí travestidos de virtude.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 02/02/2018)

AMOR DE PAI

Até acho – e só acho – que amor de pai não é a mesma coisa que amor de mãe. Amor de mãe é aquilo: conforto, alimento, compreensão com os erros, sonho de vida boa para o filho, parceria para sempre. Amor de pai…

Como conta Kafka, cuja opressão paterna lhe sufocava. “O homem que de maneira tão grandiosa era a medida de todas as coisas, não atendia ele mesmo aos mandamentos que me impunha”. Mas mesmo oprimido, transformou-se num gênio. Ou se transformou num porque o pai foi rude?

Há quem afirme que uma presença masculina disciplinadora educa. Mas um pai opressor educa? Vá saber.

Já o monstro argentino da Literatura Jorge Luís Borges, teve um pai presente. Mostrou ao filho o que era uma biblioteca, tinha uma em casa que contava o mundo, introduziu-o em duas línguas ao mesmo tempo, inglês e espanhol; jogava xadrez com o filho, discutiam filosofia. Fez seu amor demonstrar-se pela cultura. Deu no que deu.

Leopold Mozart, pai do menino prodígio Amadeus, levou o filho desde os 5 anos para a Europa inteira ver o gênio que gerara. É certo que o menino não teve infância, nem adolescência. Mas vá que nem quisesse ter. Mas seu pai decidiu que não teria. Era música pra príncipe, música pro clero, música, música, música. Ufa… Era música. Se o menino perdeu, eu não sei. A humanidade, sei que ganhou. E o velho Leopold também, um dinheiro bem legal.

O pai de Mozart, como o de Kafka, pensavam primeiro em dinheiro. Depois o depois. Leopold também era músico, mas não chegava aos pés da sandália número 28 que o filho calçava.

Não é fácil ser pai de filho talentoso. Mas tampouco o contrário. A sombra de pais talentosos podem sufocar vontades e qualidades de muitos filhos. A maioria sucumbe na sombra paterna. Exceções como Luís Fernando Veríssimo, os filhos de Dorival Caymmi, talvez. No mais das vezes não sobra, geneticamente, talento para distribuir. É só olhar para o filho de Pelé.

De qualquer forma, sempre tem quem vira o jogo, quem dá a volta por cima.

Enfim, o pai é aquele que joga duro. Aquele que se puxa desde o homem das cavernas para dar aos filhos o caminho da sobrevivência. Aquele que precisa preparar guerreiros. Eram outros tempos. Não é preciso mais ser assim. Mas perder um cacoete de cem mil anos não é fácil.

Hoje não deveríamos mais precisar deste tipo de educação. E talvez dar amor a uma criança seja também dar-lhe condições de enfrentar um mundo cruel. Ninguém mais sabe direito como agir. Não sei se o tapeio quando ele erra ou se o compreendo, sorrio e digo: vamos tentar de novo? E nem sempre um filho está errado quando se acha que está.

O Estado não cumpre mais suas regras básicas de educação, segurança, justiça e saúde. Mas o pai tem que ser cumpridor. Todo pai sempre tem que saber o que fazer. Só que não sabem. Sem contar os milhares que sequer têm pai na certidão de nascimento.

Lembrei-me agora de Edgar Alan Poe, escritor americano de histórias de terror e policiais que influenciou gerações de outras pessoas geniais. Ao fim da vida, escreveu “Eureka”, um livro que antecipou várias teorias modernas da ciência em pleno século XIX, como o Big Bang, entre outras. Poe foi um cara pra baixo. Sua mãe morreu e o pai o abandonou. Não teve parâmetros de pai bom ou pai mau. Era um bêbado, como muitos de nós. E fez um mundo.

Por fim, sabe-se lá o que seja isto: amor de pai. Para uns, muito importante. Para outros, sabe-se lá.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 26/01/2018)

MULHERES…

“É de se admirar, senhor, que tendo tantas tropas à vossa disposição, permaneçais no vosso palácio, sem procurar conquistar outros países e estender os limites de vosso império”. Foram as palavras de Atossa, mulher de Dario, imperador persa, instigando-o à guerra. O imperador cedeu à vontade da esposa e saiu a conquistar reinos vizinhos.

Os babilônios começaram a se preparar para o ataque de Dario. A fim de poupar provisões porque sabiam que Dario faria um cerco de meses à cidade, o rei ordenou o seguinte: que cada homem poupasse somente a mãe e a esposa. As demais, deveriam ser estranguladas. E o foram.

Inobstante, Dario tomou Babilônia, mandou crucificar três mil homens e mandou de outras nações dominadas 50 mil mulheres para repovoar a cidade.

Atossa, a mulher do imperador, provocou, e milhares de mulheres morreram. Outras milhares foram deportadas a força, obrigadas a gerar e repovoar um reino. E esse é só um episódio de como o sexo determina o destino de pessoas e a roda da História.

Antes disso, e depois disso, não houve época em que a mulher não se tornou vítima da potência e da grandiosidade da História. Das consideradas bruxas e queimadas pela igreja da Idade Média, às mulheres que têm o clitóris amputado no norte da África. Das trabalhadoras do campo da América Latina, às prostitutas de luxo da Europa. Nada é de hoje.

Tudo tem uma longa jornada no tempo. E se é verdade que força bruta sempre se impôs sobre o gênero feminino, também é verdade que muito da violência contra elas começa por uma igual. Pode ser pela vontade de uma rainha ou da cafetina de um pequeno cabaré de interior.

Atossa, mulher de Dario, pediu guerra e mortes ao marido em nome de poder e glória; mulheres da Idade Média denunciavam desafetas como bruxas à Igreja; foram na maioria mulheres que nos anos sessenta pediram a ditadura na Marcha pela Família; não é de todo estranho ver representantes históricas das vitimas da opressão desfraldar bandeiras às visões opressoras, e histéricas, seguirem um psicopata que quer ser presidente.

A vida é complexa. A História, fruto da vida, ainda mais. A contradição é um traço humano inexorável. Enquanto alguns se dão em sacrifício à Democracia e à liberdade, outros se dão aos discursos da morte.

O que é certo é que a fragilidade de segmentos da sociedade só pode ser defendida pela Democracia. É a Democracia que facilita e propicia a defesa dos mais fracos, dos que não tem maioria, dos que não têm a força bruta a seu favor.

A condição feminina, as orientações sexuais diferentes, os que sofrem preconceito de cor, os pobres e humildes, só terão voz e vez em regimes democráticos. Só a democracia pode garantir espaço para todos. Senão, haverá sempre espaço só para alguns. Esses “alguns” tomarão os espaços à força.

A mulher sempre foi um símbolo do mundo. Tanto que o sacrifício de fêmeas era o preço que se pagava para aplacar a ira de deuses, reis e poderosos de plantão.

Anos antes de Dario, foi uma mulher que venceu o exército persa. A rainha Tómiris derrotou o imperador Ciro, cortou sua cabeça e mergulhou-a num balde de sangue. As palavras de Tómiris ficaram famosas: eu te saciarei de sangue, como te prometi.

As decisões das mulheres determinam nossa vida. Desde o nascimento, às decisões da casa ao planeta. Delas depende muito a História continuar humana e progressista. Porque se elas quiserem um mundo obscurantista, elas conseguem.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 19/01/2018)