PAIXÃO E CRIME

 

PAIXÃO E CRIME

O mar profundo, o universo e seus enigmas ou a mente humana? O que é mais complexo, mais incompreensível? O que mais bate no nosso dia a dia?

O que mais nos impacta enquanto sociedade: terremotos em grandes profundezas e seus tsunamis, explosões de quasares e suas ondas eletromagnéticas ou o impacto de inúmeras cargas emotivas na cabeça de um sujeito?

Indo mais longe: o que nos leva a destruir quem amamos? O que leva, por exemplo, um homem a matar sua companheira, a mulher que muitas vezes ama (para não dizer sempre)?
Explicações teóricas há diversas. Tantas plausíveis e com sentido. Mas a violência parece não ter justificativas. E se buscamos teorias, não encontramos paz nelas.

A cultura, a evolução da democracia, do respeito às vontades alheias, têm até evoluído a sociedade. Todas estas atenções funcionam como inibidores de violência, como travas aos instintos, aos pré-históricos sentimentos que regiam o ser humano primordial, mas que continuam dentro de nós, latentes, como o magma de um vulcão. O número de casais que se separam sem violência é enormemente maior. No entanto, o que nos chama a atenção são sempre as exceções. Temos, pois, que diminuir drasticamente as exceções.

E se a cultura tem feito seu papel no decorrer dos milênios, não é menos verdade que de vez em quando alguém explode e reascende o que dormia na paz do amor. E talvez seja um erro dizer “na paz do amor”. Não há garantias de que o amor seja um sentimento pacífico. Tanto que em nome dele as maiores atrocidades já foram perpetradas. O amor tem seus sentimentos paralelos: posse, ciúmes, controle, exclusividade sexual. Um caldo que quando ferve, sai de baixo.

A violência conjugal não está fora dos demais contextos de violência da sociedade. E hoje, a criminalidade, o debate sobre armas, as liberalidades sexuais, demonstram que esta transição por qual passamos, de um mundo moralista para uma sociedade mais democrática em todos os sentidos, tem deixado os nervos de todos à flor da pele.

A passionalidade e seus crimes hediondos não estão somente nos romances. Estão também na religião, na política, no futebol. Onde entra um certo fanatismo (e o amor por si só é um sentimento fanático), a violência, a desforra, o pavio curto também estão presentes. Se a sociedade não jogar a malha dura da lei sobre este momento, continuaremos a ver o que temos de pior gerindo nosso dia a dia.

Por fim, o grande mar profundo, o grande universo somos nós, as pessoas, que somos tão complexos no mar e no universo das coisas simples. Somos a grande incógnita do mundo, já que nos desenvolvemos sozinhos num mar e num universo de leis físicas prontas. As leis da natureza que regem o mundo, apanham do nosso comportamento.

Nós somos o contraponto. Nós somos o novo. Nós somos o inesperado dentro da natureza. Não agimos conforme o previsto. Ainda estamos desenvolvendo padrões, comportamentos, dominando instintos. E ainda vamos matar muito por isso.

Mas vamos, ao mesmo tempo, continuar nos indignando com toda e qualquer forma de violência, pois está escrito, e se não estava, está agora, que nosso papel no universo a natureza não previu: é humanizá-lo.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 12/01/2018)

 

O ANO EM QUE FAREI SESSENTA ANOS

As portas do tempo nunca se fecham. O ano em que farei sessenta anos escancarou-se diante de mim. O tempo é um sentimento. Um sentimento de perda, de abandono. Tantos já nos abandonaram. Avós, pais, tios, primos, amigos, épocas. Tudo fica para trás, menos ele, o tempo. E eu, tantos já abandonei. Em breve, outros mais. Viver é a arte de partir. Mas também de ver a vida voltar. Vou ser avô, olhem só!

Dois mil e dezoito se anuncia um ano louco. Um ano em que um psicopata, cujo nome nem se pronuncia, pode ganhar a presidência do Brasil sob o argumento da morte. Uma doença grave se abateu sobre nós. As mais negras nuvens da infâmia voltam a nos assombrar como monstros da infância. O tempo passa, mas o terror sempre volta.

Independentemente destas atrocidades, em dois mil e dezoito farei sessenta anos. Mais um velho a carregar as estatísticas negativas da Previdência, apesar de eu continuar trabalhando. Alguns dos meus pares debocham desta minha insistência com o trabalho. Não compreendem que venho de um tempo em que não trabalhar era um conceito pejorativo e que comigo funciona a fórmula: quanto menos tempo para fazer, mais faço. Sei que tornar-se inútil é um conceito natural e irremediável. Mas o capitalismo incorporou a inutilidade de forma imediatista. Mas prazo de validade é para lâmpadas, para uma caixa de remédios, mas não para uma pessoa. Não vou negar que a inutilidade chegará, mas vou adiá-la todos os dias por mais um minuto.

Fazer sessenta anos é um símbolo forte. Há quem creia que ficar velho nos dá sabedoria. Bobagem. Ficar velho só dá velhice e dores. Conheço várias pessoas que não aprendem nada com o passar dos anos. Algumas ficam ainda mais estúpidas. Portanto, sou só um cara que vai fazer sessenta anos. Nem mais, nem menos.

E a velhice não nos inocenta. Temos um olhar benevolente com os velhos. De pena, de dó. A fragilidade da velhice nos acriança. Mas acriançar-se faz com que as pessoas se esqueçam do que foram, das maldades que perpetramos, dos nossos erros e injustiças. A velhice não é salvo conduto. Um salvo conduto se há algum, é nossa humanidade, repleta de erros, injustiças e maldades, o que é da nossa natureza. Ser gente é estar sempre na linha tênue entre o bem e o mal, dependendo dos interesses. E quando se trata de interesses todos são egoístas e sempre faremos algo de mau ou de errado na vida em nome deles.

Nossos erros, contudo, não nos torna necessariamente um demônio a ser execrado, um bandido para as masmorras, uma bruxa a ser queimada numa fogueira. Errar é tão humano quanto ser bom. E vou repetir o que todos já sabem: conviver com erros, com erros graves, não é nada fácil. Remoê-los na solidão da noite sem conseguir exorcizá-los; sem conseguir o nosso próprio perdão, não é fácil. E todos têm muitas coisas que não se perdoam! Todo mundo tem motivos de arrependimento.

Nos fins de ano, cada um lava sua roupa suja na cabeça. Promete coisas incumpríveis a si mesmo e jura em falso fidelidade às suas ideias de mundo. Há um grau de hipocrisia em cada uma dessas atitudes. Um grau sério, diga-se!

Enfim, em dois mil e dezoito farei sessenta anos. Não é provável que daqui em diante eu seja diferente do que sempre fui. A não ser naquilo que a natureza ordena que eu seja e contra o qual tudo que eu tente será estéril ou estúpido. Como seguir receitas de gurus ou religiões para me tornar uma pessoa que nunca fui. É uma deslealdade com a vida pedir perdão depois de velho. É preciso pedir sempre. Envelhecer, por si só, não nos absolve de nada . Nem significa tornar-se aquilo que nunca se foi.

Vai ser um ano punk! Vou ser avô, olhem só. Das muitas coisas loucas, um louco pode ser presidente. Mas eu, no fim da vida, só quero ser aquele que sempre fui: o que viveu para contar.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 05 /01/2018)

 

A TERRA É PLANA

 

 

Que me perdoem os professores de geografia, os astrofísicos, e os que gostam de ser enganados, mas a Terra é plana. Mesmo que um grego, antes de Cristo, tenha medido a circunferência do planeta, a Terra é plana. Mesmo que os programas espaciais digam que colocamos satélites em órbita. Eu não acredito em fotos de satélites, transmissões via satélite do outro lado do mundo. O mundo não tem outro lado. A Terra é plana.

E porque é plana? É plana porque… porque… há um abismo depois do horizonte. Quem chegou à sua beirada caiu nele. Não há lógica em não estarmos de cabeça para baixo na parte de baixo da esfera. Logo, não é uma esfera. E o céu? O céu onde está Deus, não pode estar embaixo. Lá é o inferno. Não pode haver um céu em cima e outro embaixo. A Terra é plana!

As pessoas gostam de ir atrás de lorotas. Ficam questionando para onde vai a água do mar que cai no fim do horizonte ou como seriam os vulcões na parte de baixo. A água do mar não cai. Ela só fica ali, na beiradinha. Mas não cai. O paredão de gelo dos polos a segura. É simples. E é óbvio que não há vulcões virados para baixo. Qualquer avião já poderia ter documentado isto. E porque não documentam? Porque a Nasa não permite. É tão óbvio. Somos reféns da sociedade tecnológica americana. Computadores, celulares, internet, televisão, Facebook. Estas coisas todas que nos escravizam e não nos permitem ver que a Terra é plana. Eles nos impõem o que querem. Querem que pensemos que a Terra é redonda. Mas não vamos nos submeter. Não a isso! Estou saindo da Matrix.

A gente fica acreditando que o homem pisou na lua, que fazemos viagens espaciais, que satélites fazem transmissão de futebol. Eles acham que somos trouxas.

E mais: além de plana, a Terra também é oca. É lá, bem lá no fundo, que os extraterrestres montaram suas bases e nos monitoram. As pessoas comuns não acreditam nisso. Mas eu não sou uma pessoa comum.

Sei que o fato da Terra ser plana quase não sobra espaço para que ela seja oca. E morar tão perto do magma deve ser um problema, mas são ETs e devem ter uma solução que não conhecemos. Por isso eles são ETs e nós terráqueos. Ou você é daqueles que não acredita em ETs?

O que sei, e sei com certeza, é que há forças que querem nos manipular. Manipular nossos conhecimentos e nos fazer crer em coisas que não são reais. Como querem nos fazer crer que a Terra seja redonda. Pode haver estupidez maior? E se é uma coisa que não sou, é estúpido.

Para nossa sorte, as coisas estão mudando no mundo. A inteligência está voltando à nossa Terra plana, as coisas devem mudar. Está mais que na hora de quebrarmos este paradigma de crer que a ciência explica tudo. A ciência também está a serviço de alguém. Ensinar nas escolas que a Terra é redonda é um crime contra as novas gerações. Nossa bancada no Congresso já está bolando uma lei que democratize o ensino e ponha fé e ciência no mesmo patamar de importância e permita que nós que sabemos com certeza que a Terra é plana, possamos também entrar em sala de aula e ensinar.

Quero dizer, enfim, que este é só o começo. Vamos revisar todas as visões de mundo. Que me perdoem os professores de geografia, os astrofísicos, e os que gostam de ser enganados, mas a Terra é plana.

Vamos acabar com o planeta. Digo, com a ideia de planeta redondo. A Terra é plana!

(Publicado no Jornal Ibiá em 22/12/2017)

 

 

ALGUMAS PALAVRAS

Neste post, trago o que já foi dito sobre os livros “Um dia a lua cai” e “Rapsódia em Berlim” e “Bárbaros no Paraíso”, em momentos muito próximos aos seus lançamentos. Comentários de Paulo Hecker Filho, Luiz Antônio de Assis Brasil, Antônio Holfeldt, todos eles no Jornal RS de 1995. Eduardo Lanius no Jornal do Comércio, em outubro de 2003 e Oscar Bessi Filho na revista virtual Aplauso Brasil em 2006.

Bons e inesquecíveis momentos.

 

VENDER A ALMA AO DIABO

Estes comércios entre o homem e o diabo existem na Literatura há séculos. É um imaginário religioso cuja presença na arte a faz ainda mais fantástica. O “Fausto” de Goethe é um dos melhores exemplos, mas não o único. E nestas histórias, o diabo aceita várias moedas. Gosta principalmente de almas. E o vendedor vende o que tem. Principalmente sua própria alma. Mas, às vezes, muda de moeda.

Em 1872 o escritor suíço Gottfried Keller publicou vários contos, um dos quais se chamava “A virgem e o diabo”, em que o protagonista promete a própria mulher ao diabo em troca de manter sua fortuna que gastava em obras de caridade. No final, com a ajuda da própria Virgem Maria, não entrega a “mercadoria”. Trair o diabo, só com parcerias de peso.

Vender-se ao diabo é um símbolo. O símbolo de alcançar o inalcançável, o difícil, a felicidade e a fama momentâneas ou a vida eterna. Sempre estamos insatisfeitos com o que temos e somos. E sempre há alguém disposto a vender-se ao vilão na ânsia de que dê mais certo do dar-se ao mocinho. Ainda mais quando ambos não existem.

Vivemos um tempo – o mesmo tempo há milênios – em que, para alguém, a gente tem que se vender. Para uns que se dizem do bem, via dízimo, e para outros, que se assumem do mal, via alma. E há os malandros, que arrecadam os dízimos, mas não entregam. O personagem de Keller ofereceu a esposa. O diabo até aceitou, mas no fim também não levou, apesar de ser escolado na arte de passar a perna.

Quem leu esta crônica até aqui talvez sussurre para que ninguém o ouça que pode ter sido um grande negócio o diabo ter perdido a proposta. “Fosse a minha, logo tomaria conta do inferno. O diabo ia perder todo seu domínio.”

Outro leitor talvez esteja se perguntando: “Como falo com o diabo?”

A Literatura faz juízo de valor das moedas de cada um. Há quem considere a alma um valor máximo, outros o amor. Outros, hectares de terras. Nós, do terceiro milênio, bitcoins e apartamentos em frente ao mar de Copacabana. Já Keller, uma esposa.

No conto em questão temos que levar em conta que o autor Gottfriend Keller nunca casou. Nunca teve uma parceira, uma cúmplice. Sua vida amorosa se resumiu a amores não correspondidos e prostitutas. Todas as mulheres pelas quais se apaixonou lhe deram um rotundo “não”. Também estava muito próximo da Inquisição que mal havia acabado e talvez pensasse em mulheres como bruxas. Neste caldo todo, criou um personagem que considerou a mulher o melhor que tinha a oferecer, e depois lutou para não entregar.

Nós, que nunca batemos na porta do diabo e nem ele na nossa, em verdade dizemos: nenhum de nós venderia nosso grande amor. E se tivéssemos que vender, por conta de desventuras que pudessem nos custar vida ou morte, como todo bom salafrário, não entregaríamos. Diríamos ao diabo: carimba por “12” e manda pro Serasa, mas ela tu não leva!

Enfim, tudo é Literatura. A realidade e a fantasia. E sermos capazes de nos ver nela é que faz da vida esta riqueza de não estarmos caminhando somente sobre a terra, mas também sobre as nuvens.

Se você não acredita nisso, de que a vida é o que ela é, mais aquilo que a gente imagina que ela seja, mais aquilo que nem nos passa pela cabeça, pergunte ao diabo. Ou à sua mulher. Os dois sabem.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 15/12/2017

O DIA EM QUE O AMOR MORREU

Eram quatro da manhã. O telefone tocou. Tinham jogado um travesseiro sobre ele na hora do sexo. O som saiu abafado. Carlos não acordou. Deise sim.

–Oi? – atendeu quase sem voz.

– Chama o Carlos, disse uma voz impositiva no outro lado da linha. Uma voz feminina.

– Ca… – Deise chegou a dizer, mas não foi até o fim. – Olha, ele tá dormindo…

– Não quero saber, disse a voz impositiva. Chama ele agora!, e enfatizou a palavra “agora”.

Entre o sono e a vigília, Deise fez o que a mulher mandava. Sacudiu o marido e disse: – Carlos, é pra ti.

Carlos virou-se e pegou o telefone. Ainda disse: – que merda é essa a essa hora?, quando ouviu a voz: – Quero te ver. Vem aqui! – E Carlos acordou de vez.

Sentou na cama. Um filete de suor começou a escorrer desde a testa. – Oi? – respondeu.

– Vem aqui agora ou vou aí.

Carlos colocou o telefone no colo. Olhou para Deise e pensou: não era um sonho. Não era um filme destes em que o protagonista sabe o que fazer. Não sabia. Deise também acordou. – Que foi, Carlos? Quem é?

– Vou ter que sair. – Foi quando Deise acordou definitivamente.

– Como sair, Carlos?

– Sair, Deise. Sair! Sair! – E já foi levantando, nervoso.

– Quem era no telefone?

– Volto mais tarde.

– Se tu sair agora, não vai mais me encontrar aqui – ela disse levantando também.

Ele pensou um pouco. Depois escolheu: vestiu uma roupa , crispou os lábios com quem não tem o que fazer e saiu.

Deise ficou sozinha. Furiosa, derrubou mala do armário, gritou, jogou roupas dentro, chamou de “aquela puta”, vestiu a primeira calça que encontrou, a primeira blusa. Titubeou em frente à porta e retornou. Foi ao quarto dos filhos dele, que criava como mãe e deu uma olhada. A última. Foi quando as lágrimas tomaram o lugar da dor. A fragilidade, o lugar da força. A mágoa, o lugar do perdão.  Não podia voltar atrás e saiu.

Eram quatro e trinta da manhã quando se sentou num dos bancos da Praça Rui Barbosa. Não podia acordar parentes; a mãe ou a irmã. Tinha vergonha. Tinha medo. O ódio atou um nó em sua garganta que prendeu o choro. O amor foi escorrendo entre seus dedos e por mais que abrisse as palmas das mãos para segurá-lo, ele escoava. Cada lembrança, uma mágoa. Não tinha volta. Pensou em ir a um hotel, mas a rua vazia, a praça vazia, a vida vazia lhe dava forças para ficar ali sentada, esperando o dia amanhecer.

Quando o sol raiou bateu à porta da casa da mãe. Ainda tenho um quarto? Perguntou. A mãe disse sim. Mas ela própria não respondeu as perguntas que a mãe fez sobre a hora, sobre a mala, sobre a cara de quem não dormira. Só respondeu quando a pergunta sobre Carlos. – Tá com a Ane!

Deitou na cama antiga e abraçou o travesseiro. Pensou que podia ser criança outra vez. Mas não era. Pensou que o amor não nasce nem morre de uma hora para outra. São como a vida. Nascem aos poucos, morrem aos poucos. E agora tinha que matá-lo. Angustiada, levantou e foi se sentar em frente à janela iluminada. Seu amor fugira como fogem os passarinhos. Escapam das mãos da gente e saem sem rumo pela primeira luz que encontram e nunca mais os vemos.

Era dia oito, oito de dezembro. Dois mil e dezessete. O dia em que Deise enterrou seu amor ainda vivo na mesma luz da janela pela qual ele voara.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 08/12/2017

A NOVA GERAÇÃO DE PROFESSORES

No meu tempo de aluno tive grandes professores. Os melhores da época. Minha infância e adolescência, se foram enriquecidas por uma vida difícil (e o vejo hoje), também foram pela qualidade dos meus professores. Cada um deles modificou minha vida para melhor, à sua maneira. Apesar das diferenças de cada um, eles tinham uma qualidade comum: eram sábios e queriam dar o melhor de si aos seus alunos.

Hoje acompanho de longe, mas tenho visto uma nova safra professores que orgulharia a geração anterior. Até porque creio que cada pessoa é também fruto da sociedade que o cria. E a cidade, apesar de todos os percalços e dificuldades por que tem passado, ainda consegue formar bons mestres. Mestres sonhadores que querem dar ao mundo o melhor de si.

Há poucos dias vimos no Ibiá o prêmio da professora Daniela Heckler com seu projeto “Arte na escola”. Justo no ensino infantil, um momento sui generis do ser humano. Kipling, que escreveu “Mogli, o menino lobo” já o afirmava: “Deem-me os seis primeiros anos de uma criança, e podem ficar com o resto”.  Se há o que fazer, deve-se começar cedo.

Outro projeto de destaque é o de inclusão e construção da autoestima de crianças negras, encabeçado pela professora Monaliza Furtado através da leitura de autores negros. Finalista do Prêmio RBS de educação, vai trazer bons ventos à educação brasileira.

Resumida, eis nossa educação municipal. Num mundo cada vez mais difícil, a necessidade básica é criar condições para que a meninada avance. Dificuldades serão encaradas com mais coragem e determinação por crianças fruto de projetos e de processos mais humanizados.

Nesta linha, temos os alunos que vencem olimpíadas de matemática; as feiras de ciências cujos projetos levam aos Estados Unidos, todos orientados por professores dedicados, que querem dar o melhor de si aos que querem aprender. Não existe uma “cidade das artes” sem antes haver uma “cidade da educação”.

E sem desconsiderarmos os professores e alunos que não ganham prêmios, mas que fazem seu papel tão bem quanto e que são tão importantes quanto.

Uma sociedade que forja tanta gente boa, em tantos setores diferentes, com tantas qualidades únicas, há tantas décadas, não é uma sociedade qualquer. Montenegro é um criadouro de inteligências. E se hoje, o mar revolto do momento leva o país à deriva e nós com ele, temos estas pessoas que não se entregam; as apostas únicas possíveis de êxito. Se nossa elite dirigente apodreceu, não há saída fora das novas gerações.

Daniela Heckler, Monaliza Furtado e tantos outros professores que fazem a diferença no dia a dia, os que contagiam seus alunos com a curiosidade do saber, que geram projetos científicos, culturais, artísticos; que embebem as crianças de autoestima, de alegria, de paz, de crença em si e no futuro, são estes que precisamos. Estes que os governos massacram, são estes os que precisamos. Estes que a sociedade ignora, são estes os que precisamos.

Se muitos arrefecem, perdem o ímpeto, a motivação, não há como condená-los. A estrutura moderna do país não quer professores motivados. Mas se se motivam mesmo assim, há uma revolução. Escondida na balbúrdia da sala de aula: há uma revolução.

Balzac escreveu: Maldito daquele que não clamar no deserto por pensar que não será ouvido. Daniela, Monaliza e tantos outros estão clamando. Estamos no deserto, mas estamos ouvindo vocês.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá do dia 01/12/2017

ANTE TEU CORPO

Sou um vândalo ante teu corpo

Teu corpo-taça

Onde bebo meu desejo e o teu

Teu prazer e o meu

 

sonâmbulo

em minhas mãos

Tudo que é teu se despedaça

Inclusive eu

 

ando na noite sem fim

no vago vácuo

entre o teu não

e a tensão

do meu sim

 

o copo com nossos sonhos está vazio

e meu coração

porque ninguém nunca foi alguém

Sem um corpo estatelado

no cio.

 

AS INFELIZES DORES DO PRECONCEITO

Na música “A lista”, o cantor e poeta Oswaldo Montenegro vai elencando diversas situações que no passado eram importantes e que perderam fôlego no decorrer da vida, tornando-se umas supérfluas, outras grandes demonstrações de imaturidade e preconceito. “Quantos segredos que você guardava /Hoje são bobos, ninguém quer saber”.

Sem querer tirar a importância do fato de que a vida é constituída de fases imaturas, seguidamente olhamos para trás com cara de espanto: eu pensava assim? Eu era essa pérola preconceituosa? É claro também que nem todo mundo evolui e amadurece. Tem gente que se cola num erro aos 12 anos e vai com ele para o túmulo sem percebê-lo. A cegueira é glorificada todos os dias nos templos e na política.

A sociedade já deu importância pejorativa à virgindade, às mães solteiras, à cor da pele, ao gênero, à orientação sexual, à origem étnica; já desqualificou pessoas pelos seus empregos, pelos bairros em que moram, por suas opções culturais e políticas, por suas origens familiares. Preconceitos que até vão sendo superados por pensamentos e políticas públicas de inclusão, tolerância e respeito às minorias. Mas, de vez em quando eles voltam e viram discurso de sociopatas, arrebanhando uma pequena multidão de incautos e os que querem auferir alguma vantagem da violência. Todo mundo sabe, porém, onde a volta destes discursos acabam. Para quem abraça os retrocessos, resta o futuro onde vão ver que: “Quantos segredos que você guardava / Hoje são bobos, ninguém quer saber”.

Todo mundo é fruto de um caldo de cultura onde se banham os prazeres, mas também ódios e preconceitos. Necessidades pessoais, fraquezas longínquas e fracassos modernos às vezes nos levam a querer culpar a parte do mundo menos responsável pela nossa falta de competência. Nosso dedo indicador sempre aponta para o lado mais frágil. E os ditadores de plantão, pastores que apostam em rebanhos desgarrados da humanidade, contam com isto. Resta saber se sucumbiremos a eles ou aos nossos melhores sentimentos.

Deve ser dolorido chegar-se ao fim da vida e perceber que todo o preconceito que alimentamos e propagamos, não fez mais que afastar as pessoas. E que aqueles a quem tornamos infelizes pelo fato de não tolerarmos uma diferença que sequer nos dizia respeito, poderiam ter sido nossos amigos e nos ter feito felizes.

A vida, por ser já de antemão amarga, difícil desde a largada, deveria talvez nos ensinar que discursos de ódio por diferenças gratuitas não nos levam a nada. Não quer dizer que não haja condutas que não devamos lutar contra. Não quer dizer que não haja conceitos que não sejam abomináveis. Mas não deve ser tão difícil perceber e diferenciar os que segregam daqueles que agregam.

A poesia de Oswaldo Montenegro avisa, como toda grande poesia dos grandes poetas. Mas a surdez social é uma doença que leva gerações para ser curada. Sem contar as recaídas.

Cabe insistir com a mesma pertinência da maldade. Cabe insistir com a mesma força com que os preconceitos retornam. Cabe insistir com a veemência dos pacifistas de todas as épocas, de todos os tempos. Como clamam os injustiçados, os torturados, os expulsos de seus lares, os que geram a riqueza do mundo, mas não usufruem dela.

Por que as pessoas alimentam as dores do preconceito para tornar mais gente infeliz, é um mistério. O que sabemos é o que dizem os poetas: Que, feliz e esperançosamente, os pensamentos bobos, no futuro, ninguém quererá saber deles.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 24/11/2017

NOSSOS PIORES PESADELOS

O futuro a Deus pertence diz a sabedoria popular. Se é que vai haver um. Nas nossas divagações ficcionais sobre ele, explodem monstruosidades: Frankenstein, o Soldado Universal, o Exterminador do Futuro na impagável interpretação de Arnold Schwarzenegger. Para dizer só três. Anti-heróis frutos da ciência e da tecnologia cujas qualidades humanas como sentimento e ética, desapareceram.

O avanço científico está a nos dizer que a ficção em breve pode vir a ser real, como num romance de Júlio Verne e suas vinte mil léguas submarinas. Cada vez mais próteses funcionam. Cada vez mais se entende como o corpo humano funciona. Cada vez mais os interesses bélicos e econômicos namoram a pesquisa científica. Já há chips em moscas e baratas com fins de espionagem. Os caras são ninjas.

Há muitos passos ousados sendo dados neste campo. Em 2013 um projeto sobre o cérebro recebeu um financiamento de um bilhão de euros da Comunidade Europeia. Imaginemos um chip que bloqueie ou libere neurotransmissores ao seu bel prazer. Que interfira nos sentidos, nos sentimentos e desejos. O potencial é bombástico e infinito.

Conforme especula Yuval Harari: “… um cyborg eternamente jovem que não procria, não tem sexualidade, que consegue interagir e compartilhar com computadores, que não tem raiva, medo…” E nós também podemos especular: que tipo de sentimento, que tipo de desejo um ser assim pode desenvolver? Estaríamos à beira do super-homem ou dos piores pesadelos da ficção científica?

No andar desta carruagem, a própria palavra “humano” pode mudar de sentido. E que uso farão de saber tão devastador as ideologias, os governos, as religiões?

Parece, de fato, muito assustador. Provavelmente nunca, em toda a história da humanidade, será tão importante participar politicamente do que nos próximos 100 anos. As decisões que serão tomadas e que vão mudar, não só o mundo, mas o conceito de ser humano, deverão ser as mais democráticas possíveis. Para que o maior número de pessoas possa ter a consciência do que, como pergunta o escritor judeu: O que queremos ser e no que queremos nos transformar?

Porque a transformação, lenta e gradual, já começou. E, afinal, inteligência sem consciência representa um caminho sem volta ao inferno.

A interferência da Inteligência Artificial na vida humana dá seus primeiros passos setenta mil anos depois da ascensão do Homo sapiens como o animal que vira deus. Hoje o Facebook, com programas e algoritmos complexos, baseado nas postagens das pessoas, já consegue traçar perfis bem razoáveis das ideias, gostos e valores de seus usuários. Mapas políticos e ideológicos já podem ser intuídos. O Facebook nos conhece melhor que nós mesmos. O que se fará com isso, nem imagino.

Pelo sim, pelo não, há um caminhão de cientistas que afirmam que o cérebro não “pensa” da mesma forma que o computador e que tentar “casá-los” é uma grande bobagem e que tudo é mero teatro para angariar patrocínio.

De qualquer forma, o futuro a deus pertence, seja lá que deus e que futuro sejam. O velho Olimpo grego parece uma premonição com seus deuses humanamente insatisfeitos e irresponsáveis botando terror, terror que sai dos livros e das telas para se transformar em nossos piores pesadelos.

E, se por acaso, você vir por aí alguém parecido com o Schwarzenegger, pelo menos desconfie.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 19/11/2017