A PAZ É UM LUGAR QUE NÃO EXISTE

O filósofo italiano Antônio Gramsci, nos anos 1930, mesmo preso e debilitado, não parava de produzir. Um general de Mussolini disse: precisamos fazer esta mente parar de pensar.

Não, não quero falar do fascismo que hoje nos assombra com suas aves de rapina.

Quero falar da paz. Da paz que não existe. Da paz que não existe porque estamos sempre pensando. Estamos sempre ruminando problemas, dissabores, ódios, amores, medos.

Estamos sempre bolando um jeito de sobreviver, de evitar a tristeza, de ser feliz. Sempre em guerra com nossa natureza, limitações, prazeres; sempre em luta por um mundo e contra aqueles que desejam outro. E este embate sem tréguas se trava na mente. Por isso, ela nunca para e não nos permite ter paz. A paz, só a alcança quem já desistiu.

Nesta luta, há vitórias e derrotas. Mas independente de vencermos umas e perdermos outras, em segundos, novas surgem. A constância desta batalha contra e a favor do mundo que a mente trava nos fragiliza. A busca pela paz se torna quase doentia. De vez em quando conseguimos momentos, poucos, onde a vida não é um roldão de pesadelos. Por isso os sorrisos raros.

Há aqueles que não se dão conta da batalha que estão travando. Há os que entregam nas mãos de outros seus dilemas e responsabilidades sobre o mundo e a vida. Há a ingenuidade, há a fé no que não é deste mundo. Há o casulo da infância em que muitos se protegem até a velhice. Nestes, os sorrisos são fartos. A mente também não para, mas, surpreendentemente, a paz lhes é fiel. Escudos a protegem e um pequeno paraíso ficcional parece tomar corpo e são felizes assim.

Para outros, no entanto, a realidade é uma máquina atroz moendo a carne, a sensibilidade, a beleza de tudo. E a angústia pede uma rota de fuga.

A jornalista científica sueca Karin Bojs afirma que humanos primitivos andavam centenas de quilômetros para celebrações em que a atração era a cerveja. Entorpecer-se sempre foi uma forma de suportar a crueldade da vida.

Estudos mostram inclusive que golfinhos pegam o baiacu somente para aproveitar-se de uma toxina com efeito narcótico que o peixe produz. Sabem até a quantidade de que precisam para dar “barato”.

A sobriedade é uma condição importante em sociedade. Ninguém quer um médico “cheirado” transplantando seu coração. Tampouco um soldado com um fuzil nas mãos com seu emocional “adulterado”. Mas o controle social da sobriedade é complexo. Tão complexo que o dinheiro dos ricos sem paz sustenta o tráfico e suas consequências também sem paz.

A verdade é que suportar a vida não é fácil. Então, se busca facilitadores.

Não quero com isso fazer apologia da drogadição. Quero dizer que a batalha contra ela é difícil justo por causa da condição humana. A consciência da nossa fragilidade não é fácil de suportar. E como disse lá no começo: a gente nunca para de pensar, e pensar nela.

Relembremos o poeta Charles Beaudelair:
“Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo
que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
Mas – de quê ?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.”

De certa forma, somos todos como o filósofo italiano Antônio Gramsci. Estamos presos, debilitados, mas não paramos de pensar. A paz interior é algo tão importante que há até um bordão religioso que a valoriza: Que o Senhor vos dê a sua paz!

Porém, como todos sabem, Ele não dá! A paz simplesmente… não existe.

(Crônica publicada no Jornal Ibiá de 02/03/2018)

OS SEM-FUTURO

No surpreendente livro “O dicionário kazar”, do escritor sérvio Milorad Pavitch, há uma pequena definição sobre um homem e seu futuro: Um homem deve cuidar para não andar tão depressa que seu futuro, com seu passo, não possa mais alcançá-lo. Uma corrida. O mais rápido perde.

O futuro é uma fixação doentia. Tudo que fazemos é para alcançá-lo, para torná-lo real já que ele é uma quimera. Em seu nome sacrificamos o presente e desconsideramos o passado. Inobstante, não há futuro sem queimarmos a lenha do presente na sua edificação. O capitalismo dá as regras: acumular no presente para garantir o futuro. Estudar no presente para se qualificar para o futuro.

Até o país em que vivemos, é um país do futuro e não do presente. Uma escola de samba estampou o golpista Michel como vampiro, caricatura de Nosferatu a sugar direitos dos pobres e frágeis como se fora sangue. Tudo para melhorar o presente de poucos e piorar o futuro de muitos.

No mesmo livro, há um personagem brilhante que fala numa língua, mas se cala em outra. No Brasil, o silêncio da maioria contra tantos desmandos, calou fundo numa outra língua: a das imagens e cores da arte dos morros do Rio de Janeiro; as vozes possíveis no momento.

O futuro, aquele pelo qual trabalhamos décadas, escorre feito um filete de sangue dos lábios sem cor do vampiro de plantão. Nosso futuro vai morrer por sangria sob o silêncio de outra língua, a das panelas.

Na página 87 do “Dicionário” de Pavich ficamos sabendo que “o caminho mais seguro para se chegar ao verdadeiro futuro (pois existe também um falso futuro) é ir na direção em que teu medo cresce”. Portanto, só há futuro verdadeiro se enfrentarmos o medo.

O futuro é uma ideia fixa, e também sacra. Temos isso conosco, de que tudo que é sacralizado tem aura divina. Quando Pavitch diz que “uma mulher sem bunda é como uma cidade sem igrejas” é a isso que se refere. Divinizamos a bunda feminina pelo desejo que inspira, pelo prazer que promete. E o futuro? Por que entregamos grande parte do presente para sua construção se nem temos certeza desse esforço virá o futuro verdadeiro? Se não estamos trilhando na direção em que nosso medo cresce e sim o caminho do gado ao brete?

É a Literatura pregando por parábolas.

Só o amor rivaliza com o futuro. Só o amor não pode esperar. “Ele a acariciava tão bem que a alma dela murmurava no seu corpo”. Milorad é um mestre! Amar é urgente. Para o amor pouco importa o futuro. O amor só constrói um presente. Como a vida, só se vive o presente. Como um espelho, só reflete o presente. Todos os espelhos que prometem o futuro, refletem antes tragédias para o presente. Conforme Milorad, “não se pode receber da verdade mais do que nela se investiu”. E assim, do futuro.

Se é verdade que “a paixão de ler é muito mais importante que a paixão de escrever” é porque ler cria mais mundos do que escrever. Porque ler gera mais futuros do que escrever.

O futuro parece uma miscelânea de assuntos desconexos, mas um cimento os une. O futuro se sonha acordado. Se tanto dedicamos do presente para que haja futuro; se querem nos roubar esse futuro que sonhamos, então na verdade estão nos roubando o presente, o sacrifício do presente, a paz do presente… o tempo presente!

Por fim, depois de nos roubarem o trabalho, a terra, a paz e a liberdade, farão de nós os sem-futuro. Zumbis que fogem de seus medos e os entregam para falsos messias e falsos heróis e, em nome deles, nos mataremos uns aos outros por uma migalha de… futuro.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 16/02/2018)

A ESTÉTICA DA CRUELDADE

 

“Pobre país, pois está enxovalhado (…) Junto com o sangue e as lágrimas, a imundície respinga nas ruas de suas cidades. O que era belo foi emporcalhado. O que era verdade foi apagado pela gritaria mentirosa. (…) A sórdida mentira usurpa o poder (…) Pobre país onde se instalaram os Cavaleiros do Apocalipse (…) Sua monstruosidade deverá ser idolatrada (…) Sua fealdade, admirada como nova beleza. (…) Reina a noite em nossa pátria (…) Onde quer que eles e seus capachos se apresentem, a luz se apaga e reinam as trevas.”

Klaus Mann em “MEFISTO” – Capítulo: O Pacto com o diabo. Pág. 156.

Quando os nazistas tomaram Budapest, alinharam judeus à beira do Danúbio. Mandaram tirar os sapatos, um artigo de luxo no inverno europeu, e fuzilavam para que caíssem no rio. Os casais, amarravam uns aos outros, mas só atiram num, de maneiras que o outro morria afogado. Hoje, em Budapest, há um símbolo desta ignominia em sapatos de bronze colocados à beira do rio.

Claro neste símbolo que a maldade humana não está unicamente ligada à busca pelo poder ou à sua manutenção. A matança de inocentes, a destruição moral ou física de quem sequer é um inimigo está mais ligada à crueldade gratuita, à psicopatia dos ressentidos do que, propriamente, a uma guerra entre forças equivalentes.

Está comprovado que a vitória do nazismo foi a vitória de rancorosos, daqueles que criam que os seus fracassos como pessoas estava ligado a um “inimigo” transcendental: os judeus.
Não é difícil transformar o ressentimento numa religião quando cremos que nossa condição social não é culpa das complexas relações históricas e econômicas, mas de pessoas individualmente, de instituições ou da cultura e da sabedoria de outros. A ignorância gosta disso: admitir que a ignorância é culpa de “alguém”. “Alguém” a quem possa apontar o dedo, pessoalizar e dizer: que gente “má”; vamos matá-los!

Logo estamos na linha de tiro, sem sabermos como nos elegeram, eu ou você, as pessoas más que os condicionaram à ignorância e ao fracasso.

Goebbels, o ministro da propaganda nazista, foi campeão nisso. Repetir uma mentira até que algo dela permaneça; de transformar pessoas comuns em inimigos do estado só por serem de uma etnia diferente, ou de terem uma ideia de mundo diferente.

É por estas iniquidades que o nazismo, e todas as suas formas menores de ação política e crueldades pessoais, não podem nunca ser dignificadas por qualquer forma de razão, por qualquer expressão de uma boa palavra. A iniquidade deve ser sempre condenada. Mesmo que seja pelo silêncio, pelo desprezo e pela desconsideração, o que, por fim, até ajuda a democracia.

Quando ignoramos o que representa o mal, como símbolo, quando não lhe damos respaldo intelectual ou midiático, estamos sim dando um passo em frente!

Às vezes a iniquidade, a violência perpetrada pelo ressentimento da ignorância, não está no perfilar de inocentes a serem metralhados. Mas no ataque à cidadania, à liberdade de expressão, à liberdade de participação política. Está no engano, na mentira, na chantagem. De igual forma, ações que não podem ser dignificadas. Nem por um sorriso. Nem por uma boa palavra.

Porque uma cidade, um estado, um país, devem ser construídos pela diversidade, pelo debate franco e livre, e não pela ação nefasta de nazis pós-modernos.

Sob pena de termos, um dia, sapatos de bronze alinhados nas barrancas dos rios brasileiros como forma de simbolizar este período negro em que estamos entrando.

 

(Publicado no Jornal Ibiá em 09/02/2018)

AS LOUCURAS DA VONTADE

Este tipo de assunto nunca me levaria a escrever uma crônica se não tivesse lido algo muito louco num livro de Mário Vargas Llosa. No seu soberbo “Cartas a um jovem escritor” ele compara o fato de alguém querer ser escritor com o ato radical de alguém que quer emagrecer. Ou seja, quem quer escrever tem que se dispor a tudo. Então ele lembra o fato de algumas mulheres do século XIX que ingeriam larvas de solitária, o verme, para que o bicho as emagrecesse. Fui pesquisar no oráculo do século XXI, o Google, e achei esta e muitas outras histórias a respeito. Fato verídico e histórico.

O culto do corpo e da beleza não é de hoje. Os gregos meio que iniciaram isto fazendo estátuas com as proporções mais bonitas e dando valor à beleza, tanto à beleza plástica, às formas, como as artes de uma maneira geral. Daí que o belo ganhou um ideal. A elegância ganhou status. Essas coisas que vem de muito longe e nunca mais deixam de influenciar uma pessoa.

Mas o mote desta crônica não é beleza em si, e sim o que as pessoas são capazes de fazer para alcançá-la. E nem vamos falar de horas de exercícios, de placebos que mentem, de shakes que ludibriam, de anabolizantes que recriam um corpo falso, de remédios que para emagrecer que mexem no psíquico.

Também só vou mencionar um tal C. S. Lovett , um ministro evangélico, que escreveu um libelo contra a gordura chamado, numa tradução medíocre como é a minha: Socorro, Deus. O diabo me quer gordo!. Como disse a comentarista do livro, o diabo já não está mais somente interessado na alma, mas também no corpo. Haja tolerância com a ignorância.

Quero ficar mesmo é no fato de as pessoas ingerirem um verme, uma das coisas mais escrotas com que a natureza nos presenteou; um parasita que precisamos nos livrar à base de remédios, porque traz consigo um monte de problemas, em nome de um propósito profundo.

É para vermos até onde vai a vontade. Era isso que Vargas Lhosa queria chamar a atenção. O que somos capazes de fazer quando movidos por uma causa e a desejamos do fundo da alma.

Por fim, fiz uma varredura na internet para saber como as mulheres do século XIX faziam para se livrar do verme depois que chegassem ao peso desejado, e encontrei esta pérola: “A solução para desfazer-se d este animal era não menos tenebrosas do que tê-lo em si. Para começar tinha que deixar de alimentar o monstro interior. Depois pendurar-se de cabeça para baixo, com a boca aberta em frente a um prato de comida para que a solitária, atraída pelo cheiro, sair e procurar por sim mesma seu próprio sustente”.

Partindo do princípio que as Taenia solium não sentem cheiro nem tem olhos, este método aí está mais pra lenda que pra verdade. Imagino que, naquele tempo, sem vermicidas, o bicho ficava lá dentro por um bom tempo.

De qualquer forma, como metáfora das vontades humanas, este exemplo trazido pelo escritor peruano está perfeito. Quem quer ser alguma coisa na vida, mas quer ser meeeesmo, tem que ter a radicalidade daquelas que no século XIX engoliam vermes para emagrecer. Quem não quer correr os riscos de morrer ou de ser infeliz, não merece as alegrias de alcançar o nirvana.

Contudo, tenhamos sempre um plano B. Não deixemos que as loucuras da vontade dominem nossos objetivos. Não nos deixemos realizar na vida nem busquemos a felicidade ajudados pelo que pareça, ou seja, um verme. Há muitos deles por aí travestidos de virtude.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 02/02/2018)

AMOR DE PAI

Até acho – e só acho – que amor de pai não é a mesma coisa que amor de mãe. Amor de mãe é aquilo: conforto, alimento, compreensão com os erros, sonho de vida boa para o filho, parceria para sempre. Amor de pai…

Como conta Kafka, cuja opressão paterna lhe sufocava. “O homem que de maneira tão grandiosa era a medida de todas as coisas, não atendia ele mesmo aos mandamentos que me impunha”. Mas mesmo oprimido, transformou-se num gênio. Ou se transformou num porque o pai foi rude?

Há quem afirme que uma presença masculina disciplinadora educa. Mas um pai opressor educa? Vá saber.

Já o monstro argentino da Literatura Jorge Luís Borges, teve um pai presente. Mostrou ao filho o que era uma biblioteca, tinha uma em casa que contava o mundo, introduziu-o em duas línguas ao mesmo tempo, inglês e espanhol; jogava xadrez com o filho, discutiam filosofia. Fez seu amor demonstrar-se pela cultura. Deu no que deu.

Leopold Mozart, pai do menino prodígio Amadeus, levou o filho desde os 5 anos para a Europa inteira ver o gênio que gerara. É certo que o menino não teve infância, nem adolescência. Mas vá que nem quisesse ter. Mas seu pai decidiu que não teria. Era música pra príncipe, música pro clero, música, música, música. Ufa… Era música. Se o menino perdeu, eu não sei. A humanidade, sei que ganhou. E o velho Leopold também, um dinheiro bem legal.

O pai de Mozart, como o de Kafka, pensavam primeiro em dinheiro. Depois o depois. Leopold também era músico, mas não chegava aos pés da sandália número 28 que o filho calçava.

Não é fácil ser pai de filho talentoso. Mas tampouco o contrário. A sombra de pais talentosos podem sufocar vontades e qualidades de muitos filhos. A maioria sucumbe na sombra paterna. Exceções como Luís Fernando Veríssimo, os filhos de Dorival Caymmi, talvez. No mais das vezes não sobra, geneticamente, talento para distribuir. É só olhar para o filho de Pelé.

De qualquer forma, sempre tem quem vira o jogo, quem dá a volta por cima.

Enfim, o pai é aquele que joga duro. Aquele que se puxa desde o homem das cavernas para dar aos filhos o caminho da sobrevivência. Aquele que precisa preparar guerreiros. Eram outros tempos. Não é preciso mais ser assim. Mas perder um cacoete de cem mil anos não é fácil.

Hoje não deveríamos mais precisar deste tipo de educação. E talvez dar amor a uma criança seja também dar-lhe condições de enfrentar um mundo cruel. Ninguém mais sabe direito como agir. Não sei se o tapeio quando ele erra ou se o compreendo, sorrio e digo: vamos tentar de novo? E nem sempre um filho está errado quando se acha que está.

O Estado não cumpre mais suas regras básicas de educação, segurança, justiça e saúde. Mas o pai tem que ser cumpridor. Todo pai sempre tem que saber o que fazer. Só que não sabem. Sem contar os milhares que sequer têm pai na certidão de nascimento.

Lembrei-me agora de Edgar Alan Poe, escritor americano de histórias de terror e policiais que influenciou gerações de outras pessoas geniais. Ao fim da vida, escreveu “Eureka”, um livro que antecipou várias teorias modernas da ciência em pleno século XIX, como o Big Bang, entre outras. Poe foi um cara pra baixo. Sua mãe morreu e o pai o abandonou. Não teve parâmetros de pai bom ou pai mau. Era um bêbado, como muitos de nós. E fez um mundo.

Por fim, sabe-se lá o que seja isto: amor de pai. Para uns, muito importante. Para outros, sabe-se lá.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 26/01/2018)

MULHERES…

“É de se admirar, senhor, que tendo tantas tropas à vossa disposição, permaneçais no vosso palácio, sem procurar conquistar outros países e estender os limites de vosso império”. Foram as palavras de Atossa, mulher de Dario, imperador persa, instigando-o à guerra. O imperador cedeu à vontade da esposa e saiu a conquistar reinos vizinhos.

Os babilônios começaram a se preparar para o ataque de Dario. A fim de poupar provisões porque sabiam que Dario faria um cerco de meses à cidade, o rei ordenou o seguinte: que cada homem poupasse somente a mãe e a esposa. As demais, deveriam ser estranguladas. E o foram.

Inobstante, Dario tomou Babilônia, mandou crucificar três mil homens e mandou de outras nações dominadas 50 mil mulheres para repovoar a cidade.

Atossa, a mulher do imperador, provocou, e milhares de mulheres morreram. Outras milhares foram deportadas a força, obrigadas a gerar e repovoar um reino. E esse é só um episódio de como o sexo determina o destino de pessoas e a roda da História.

Antes disso, e depois disso, não houve época em que a mulher não se tornou vítima da potência e da grandiosidade da História. Das consideradas bruxas e queimadas pela igreja da Idade Média, às mulheres que têm o clitóris amputado no norte da África. Das trabalhadoras do campo da América Latina, às prostitutas de luxo da Europa. Nada é de hoje.

Tudo tem uma longa jornada no tempo. E se é verdade que força bruta sempre se impôs sobre o gênero feminino, também é verdade que muito da violência contra elas começa por uma igual. Pode ser pela vontade de uma rainha ou da cafetina de um pequeno cabaré de interior.

Atossa, mulher de Dario, pediu guerra e mortes ao marido em nome de poder e glória; mulheres da Idade Média denunciavam desafetas como bruxas à Igreja; foram na maioria mulheres que nos anos sessenta pediram a ditadura na Marcha pela Família; não é de todo estranho ver representantes históricas das vitimas da opressão desfraldar bandeiras às visões opressoras, e histéricas, seguirem um psicopata que quer ser presidente.

A vida é complexa. A História, fruto da vida, ainda mais. A contradição é um traço humano inexorável. Enquanto alguns se dão em sacrifício à Democracia e à liberdade, outros se dão aos discursos da morte.

O que é certo é que a fragilidade de segmentos da sociedade só pode ser defendida pela Democracia. É a Democracia que facilita e propicia a defesa dos mais fracos, dos que não tem maioria, dos que não têm a força bruta a seu favor.

A condição feminina, as orientações sexuais diferentes, os que sofrem preconceito de cor, os pobres e humildes, só terão voz e vez em regimes democráticos. Só a democracia pode garantir espaço para todos. Senão, haverá sempre espaço só para alguns. Esses “alguns” tomarão os espaços à força.

A mulher sempre foi um símbolo do mundo. Tanto que o sacrifício de fêmeas era o preço que se pagava para aplacar a ira de deuses, reis e poderosos de plantão.

Anos antes de Dario, foi uma mulher que venceu o exército persa. A rainha Tómiris derrotou o imperador Ciro, cortou sua cabeça e mergulhou-a num balde de sangue. As palavras de Tómiris ficaram famosas: eu te saciarei de sangue, como te prometi.

As decisões das mulheres determinam nossa vida. Desde o nascimento, às decisões da casa ao planeta. Delas depende muito a História continuar humana e progressista. Porque se elas quiserem um mundo obscurantista, elas conseguem.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 19/01/2018)

PAIXÃO E CRIME

 

PAIXÃO E CRIME

O mar profundo, o universo e seus enigmas ou a mente humana? O que é mais complexo, mais incompreensível? O que mais bate no nosso dia a dia?

O que mais nos impacta enquanto sociedade: terremotos em grandes profundezas e seus tsunamis, explosões de quasares e suas ondas eletromagnéticas ou o impacto de inúmeras cargas emotivas na cabeça de um sujeito?

Indo mais longe: o que nos leva a destruir quem amamos? O que leva, por exemplo, um homem a matar sua companheira, a mulher que muitas vezes ama (para não dizer sempre)?
Explicações teóricas há diversas. Tantas plausíveis e com sentido. Mas a violência parece não ter justificativas. E se buscamos teorias, não encontramos paz nelas.

A cultura, a evolução da democracia, do respeito às vontades alheias, têm até evoluído a sociedade. Todas estas atenções funcionam como inibidores de violência, como travas aos instintos, aos pré-históricos sentimentos que regiam o ser humano primordial, mas que continuam dentro de nós, latentes, como o magma de um vulcão. O número de casais que se separam sem violência é enormemente maior. No entanto, o que nos chama a atenção são sempre as exceções. Temos, pois, que diminuir drasticamente as exceções.

E se a cultura tem feito seu papel no decorrer dos milênios, não é menos verdade que de vez em quando alguém explode e reascende o que dormia na paz do amor. E talvez seja um erro dizer “na paz do amor”. Não há garantias de que o amor seja um sentimento pacífico. Tanto que em nome dele as maiores atrocidades já foram perpetradas. O amor tem seus sentimentos paralelos: posse, ciúmes, controle, exclusividade sexual. Um caldo que quando ferve, sai de baixo.

A violência conjugal não está fora dos demais contextos de violência da sociedade. E hoje, a criminalidade, o debate sobre armas, as liberalidades sexuais, demonstram que esta transição por qual passamos, de um mundo moralista para uma sociedade mais democrática em todos os sentidos, tem deixado os nervos de todos à flor da pele.

A passionalidade e seus crimes hediondos não estão somente nos romances. Estão também na religião, na política, no futebol. Onde entra um certo fanatismo (e o amor por si só é um sentimento fanático), a violência, a desforra, o pavio curto também estão presentes. Se a sociedade não jogar a malha dura da lei sobre este momento, continuaremos a ver o que temos de pior gerindo nosso dia a dia.

Por fim, o grande mar profundo, o grande universo somos nós, as pessoas, que somos tão complexos no mar e no universo das coisas simples. Somos a grande incógnita do mundo, já que nos desenvolvemos sozinhos num mar e num universo de leis físicas prontas. As leis da natureza que regem o mundo, apanham do nosso comportamento.

Nós somos o contraponto. Nós somos o novo. Nós somos o inesperado dentro da natureza. Não agimos conforme o previsto. Ainda estamos desenvolvendo padrões, comportamentos, dominando instintos. E ainda vamos matar muito por isso.

Mas vamos, ao mesmo tempo, continuar nos indignando com toda e qualquer forma de violência, pois está escrito, e se não estava, está agora, que nosso papel no universo a natureza não previu: é humanizá-lo.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 12/01/2018)

 

O ANO EM QUE FAREI SESSENTA ANOS

As portas do tempo nunca se fecham. O ano em que farei sessenta anos escancarou-se diante de mim. O tempo é um sentimento. Um sentimento de perda, de abandono. Tantos já nos abandonaram. Avós, pais, tios, primos, amigos, épocas. Tudo fica para trás, menos ele, o tempo. E eu, tantos já abandonei. Em breve, outros mais. Viver é a arte de partir. Mas também de ver a vida voltar. Vou ser avô, olhem só!

Dois mil e dezoito se anuncia um ano louco. Um ano em que um psicopata, cujo nome nem se pronuncia, pode ganhar a presidência do Brasil sob o argumento da morte. Uma doença grave se abateu sobre nós. As mais negras nuvens da infâmia voltam a nos assombrar como monstros da infância. O tempo passa, mas o terror sempre volta.

Independentemente destas atrocidades, em dois mil e dezoito farei sessenta anos. Mais um velho a carregar as estatísticas negativas da Previdência, apesar de eu continuar trabalhando. Alguns dos meus pares debocham desta minha insistência com o trabalho. Não compreendem que venho de um tempo em que não trabalhar era um conceito pejorativo e que comigo funciona a fórmula: quanto menos tempo para fazer, mais faço. Sei que tornar-se inútil é um conceito natural e irremediável. Mas o capitalismo incorporou a inutilidade de forma imediatista. Mas prazo de validade é para lâmpadas, para uma caixa de remédios, mas não para uma pessoa. Não vou negar que a inutilidade chegará, mas vou adiá-la todos os dias por mais um minuto.

Fazer sessenta anos é um símbolo forte. Há quem creia que ficar velho nos dá sabedoria. Bobagem. Ficar velho só dá velhice e dores. Conheço várias pessoas que não aprendem nada com o passar dos anos. Algumas ficam ainda mais estúpidas. Portanto, sou só um cara que vai fazer sessenta anos. Nem mais, nem menos.

E a velhice não nos inocenta. Temos um olhar benevolente com os velhos. De pena, de dó. A fragilidade da velhice nos acriança. Mas acriançar-se faz com que as pessoas se esqueçam do que foram, das maldades que perpetramos, dos nossos erros e injustiças. A velhice não é salvo conduto. Um salvo conduto se há algum, é nossa humanidade, repleta de erros, injustiças e maldades, o que é da nossa natureza. Ser gente é estar sempre na linha tênue entre o bem e o mal, dependendo dos interesses. E quando se trata de interesses todos são egoístas e sempre faremos algo de mau ou de errado na vida em nome deles.

Nossos erros, contudo, não nos torna necessariamente um demônio a ser execrado, um bandido para as masmorras, uma bruxa a ser queimada numa fogueira. Errar é tão humano quanto ser bom. E vou repetir o que todos já sabem: conviver com erros, com erros graves, não é nada fácil. Remoê-los na solidão da noite sem conseguir exorcizá-los; sem conseguir o nosso próprio perdão, não é fácil. E todos têm muitas coisas que não se perdoam! Todo mundo tem motivos de arrependimento.

Nos fins de ano, cada um lava sua roupa suja na cabeça. Promete coisas incumpríveis a si mesmo e jura em falso fidelidade às suas ideias de mundo. Há um grau de hipocrisia em cada uma dessas atitudes. Um grau sério, diga-se!

Enfim, em dois mil e dezoito farei sessenta anos. Não é provável que daqui em diante eu seja diferente do que sempre fui. A não ser naquilo que a natureza ordena que eu seja e contra o qual tudo que eu tente será estéril ou estúpido. Como seguir receitas de gurus ou religiões para me tornar uma pessoa que nunca fui. É uma deslealdade com a vida pedir perdão depois de velho. É preciso pedir sempre. Envelhecer, por si só, não nos absolve de nada . Nem significa tornar-se aquilo que nunca se foi.

Vai ser um ano punk! Vou ser avô, olhem só. Das muitas coisas loucas, um louco pode ser presidente. Mas eu, no fim da vida, só quero ser aquele que sempre fui: o que viveu para contar.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 05 /01/2018)

 

A TERRA É PLANA

 

 

Que me perdoem os professores de geografia, os astrofísicos, e os que gostam de ser enganados, mas a Terra é plana. Mesmo que um grego, antes de Cristo, tenha medido a circunferência do planeta, a Terra é plana. Mesmo que os programas espaciais digam que colocamos satélites em órbita. Eu não acredito em fotos de satélites, transmissões via satélite do outro lado do mundo. O mundo não tem outro lado. A Terra é plana.

E porque é plana? É plana porque… porque… há um abismo depois do horizonte. Quem chegou à sua beirada caiu nele. Não há lógica em não estarmos de cabeça para baixo na parte de baixo da esfera. Logo, não é uma esfera. E o céu? O céu onde está Deus, não pode estar embaixo. Lá é o inferno. Não pode haver um céu em cima e outro embaixo. A Terra é plana!

As pessoas gostam de ir atrás de lorotas. Ficam questionando para onde vai a água do mar que cai no fim do horizonte ou como seriam os vulcões na parte de baixo. A água do mar não cai. Ela só fica ali, na beiradinha. Mas não cai. O paredão de gelo dos polos a segura. É simples. E é óbvio que não há vulcões virados para baixo. Qualquer avião já poderia ter documentado isto. E porque não documentam? Porque a Nasa não permite. É tão óbvio. Somos reféns da sociedade tecnológica americana. Computadores, celulares, internet, televisão, Facebook. Estas coisas todas que nos escravizam e não nos permitem ver que a Terra é plana. Eles nos impõem o que querem. Querem que pensemos que a Terra é redonda. Mas não vamos nos submeter. Não a isso! Estou saindo da Matrix.

A gente fica acreditando que o homem pisou na lua, que fazemos viagens espaciais, que satélites fazem transmissão de futebol. Eles acham que somos trouxas.

E mais: além de plana, a Terra também é oca. É lá, bem lá no fundo, que os extraterrestres montaram suas bases e nos monitoram. As pessoas comuns não acreditam nisso. Mas eu não sou uma pessoa comum.

Sei que o fato da Terra ser plana quase não sobra espaço para que ela seja oca. E morar tão perto do magma deve ser um problema, mas são ETs e devem ter uma solução que não conhecemos. Por isso eles são ETs e nós terráqueos. Ou você é daqueles que não acredita em ETs?

O que sei, e sei com certeza, é que há forças que querem nos manipular. Manipular nossos conhecimentos e nos fazer crer em coisas que não são reais. Como querem nos fazer crer que a Terra seja redonda. Pode haver estupidez maior? E se é uma coisa que não sou, é estúpido.

Para nossa sorte, as coisas estão mudando no mundo. A inteligência está voltando à nossa Terra plana, as coisas devem mudar. Está mais que na hora de quebrarmos este paradigma de crer que a ciência explica tudo. A ciência também está a serviço de alguém. Ensinar nas escolas que a Terra é redonda é um crime contra as novas gerações. Nossa bancada no Congresso já está bolando uma lei que democratize o ensino e ponha fé e ciência no mesmo patamar de importância e permita que nós que sabemos com certeza que a Terra é plana, possamos também entrar em sala de aula e ensinar.

Quero dizer, enfim, que este é só o começo. Vamos revisar todas as visões de mundo. Que me perdoem os professores de geografia, os astrofísicos, e os que gostam de ser enganados, mas a Terra é plana.

Vamos acabar com o planeta. Digo, com a ideia de planeta redondo. A Terra é plana!

(Publicado no Jornal Ibiá em 22/12/2017)

 

 

VENDER A ALMA AO DIABO

Estes comércios entre o homem e o diabo existem na Literatura há séculos. É um imaginário religioso cuja presença na arte a faz ainda mais fantástica. O “Fausto” de Goethe é um dos melhores exemplos, mas não o único. E nestas histórias, o diabo aceita várias moedas. Gosta principalmente de almas. E o vendedor vende o que tem. Principalmente sua própria alma. Mas, às vezes, muda de moeda.

Em 1872 o escritor suíço Gottfried Keller publicou vários contos, um dos quais se chamava “A virgem e o diabo”, em que o protagonista promete a própria mulher ao diabo em troca de manter sua fortuna que gastava em obras de caridade. No final, com a ajuda da própria Virgem Maria, não entrega a “mercadoria”. Trair o diabo, só com parcerias de peso.

Vender-se ao diabo é um símbolo. O símbolo de alcançar o inalcançável, o difícil, a felicidade e a fama momentâneas ou a vida eterna. Sempre estamos insatisfeitos com o que temos e somos. E sempre há alguém disposto a vender-se ao vilão na ânsia de que dê mais certo do dar-se ao mocinho. Ainda mais quando ambos não existem.

Vivemos um tempo – o mesmo tempo há milênios – em que, para alguém, a gente tem que se vender. Para uns que se dizem do bem, via dízimo, e para outros, que se assumem do mal, via alma. E há os malandros, que arrecadam os dízimos, mas não entregam. O personagem de Keller ofereceu a esposa. O diabo até aceitou, mas no fim também não levou, apesar de ser escolado na arte de passar a perna.

Quem leu esta crônica até aqui talvez sussurre para que ninguém o ouça que pode ter sido um grande negócio o diabo ter perdido a proposta. “Fosse a minha, logo tomaria conta do inferno. O diabo ia perder todo seu domínio.”

Outro leitor talvez esteja se perguntando: “Como falo com o diabo?”

A Literatura faz juízo de valor das moedas de cada um. Há quem considere a alma um valor máximo, outros o amor. Outros, hectares de terras. Nós, do terceiro milênio, bitcoins e apartamentos em frente ao mar de Copacabana. Já Keller, uma esposa.

No conto em questão temos que levar em conta que o autor Gottfriend Keller nunca casou. Nunca teve uma parceira, uma cúmplice. Sua vida amorosa se resumiu a amores não correspondidos e prostitutas. Todas as mulheres pelas quais se apaixonou lhe deram um rotundo “não”. Também estava muito próximo da Inquisição que mal havia acabado e talvez pensasse em mulheres como bruxas. Neste caldo todo, criou um personagem que considerou a mulher o melhor que tinha a oferecer, e depois lutou para não entregar.

Nós, que nunca batemos na porta do diabo e nem ele na nossa, em verdade dizemos: nenhum de nós venderia nosso grande amor. E se tivéssemos que vender, por conta de desventuras que pudessem nos custar vida ou morte, como todo bom salafrário, não entregaríamos. Diríamos ao diabo: carimba por “12” e manda pro Serasa, mas ela tu não leva!

Enfim, tudo é Literatura. A realidade e a fantasia. E sermos capazes de nos ver nela é que faz da vida esta riqueza de não estarmos caminhando somente sobre a terra, mas também sobre as nuvens.

Se você não acredita nisso, de que a vida é o que ela é, mais aquilo que a gente imagina que ela seja, mais aquilo que nem nos passa pela cabeça, pergunte ao diabo. Ou à sua mulher. Os dois sabem.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 15/12/2017