O DIA EM QUE O AMOR MORREU

Eram quatro da manhã. O telefone tocou. Tinham jogado um travesseiro sobre ele na hora do sexo. O som saiu abafado. Carlos não acordou. Deise sim.

–Oi? – atendeu quase sem voz.

– Chama o Carlos, disse uma voz impositiva no outro lado da linha. Uma voz feminina.

– Ca… – Deise chegou a dizer, mas não foi até o fim. – Olha, ele tá dormindo…

– Não quero saber, disse a voz impositiva. Chama ele agora!, e enfatizou a palavra “agora”.

Entre o sono e a vigília, Deise fez o que a mulher mandava. Sacudiu o marido e disse: – Carlos, é pra ti.

Carlos virou-se e pegou o telefone. Ainda disse: – que merda é essa a essa hora?, quando ouviu a voz: – Quero te ver. Vem aqui! – E Carlos acordou de vez.

Sentou na cama. Um filete de suor começou a escorrer desde a testa. – Oi? – respondeu.

– Vem aqui agora ou vou aí.

Carlos colocou o telefone no colo. Olhou para Deise e pensou: não era um sonho. Não era um filme destes em que o protagonista sabe o que fazer. Não sabia. Deise também acordou. – Que foi, Carlos? Quem é?

– Vou ter que sair. – Foi quando Deise acordou definitivamente.

– Como sair, Carlos?

– Sair, Deise. Sair! Sair! – E já foi levantando, nervoso.

– Quem era no telefone?

– Volto mais tarde.

– Se tu sair agora, não vai mais me encontrar aqui – ela disse levantando também.

Ele pensou um pouco. Depois escolheu: vestiu uma roupa , crispou os lábios com quem não tem o que fazer e saiu.

Deise ficou sozinha. Furiosa, derrubou mala do armário, gritou, jogou roupas dentro, chamou de “aquela puta”, vestiu a primeira calça que encontrou, a primeira blusa. Titubeou em frente à porta e retornou. Foi ao quarto dos filhos dele, que criava como mãe e deu uma olhada. A última. Foi quando as lágrimas tomaram o lugar da dor. A fragilidade, o lugar da força. A mágoa, o lugar do perdão.  Não podia voltar atrás e saiu.

Eram quatro e trinta da manhã quando se sentou num dos bancos da Praça Rui Barbosa. Não podia acordar parentes; a mãe ou a irmã. Tinha vergonha. Tinha medo. O ódio atou um nó em sua garganta que prendeu o choro. O amor foi escorrendo entre seus dedos e por mais que abrisse as palmas das mãos para segurá-lo, ele escoava. Cada lembrança, uma mágoa. Não tinha volta. Pensou em ir a um hotel, mas a rua vazia, a praça vazia, a vida vazia lhe dava forças para ficar ali sentada, esperando o dia amanhecer.

Quando o sol raiou bateu à porta da casa da mãe. Ainda tenho um quarto? Perguntou. A mãe disse sim. Mas ela própria não respondeu as perguntas que a mãe fez sobre a hora, sobre a mala, sobre a cara de quem não dormira. Só respondeu quando a pergunta sobre Carlos. – Tá com a Ane!

Deitou na cama antiga e abraçou o travesseiro. Pensou que podia ser criança outra vez. Mas não era. Pensou que o amor não nasce nem morre de uma hora para outra. São como a vida. Nascem aos poucos, morrem aos poucos. E agora tinha que matá-lo. Angustiada, levantou e foi se sentar em frente à janela iluminada. Seu amor fugira como fogem os passarinhos. Escapam das mãos da gente e saem sem rumo pela primeira luz que encontram e nunca mais os vemos.

Era dia oito, oito de dezembro. Dois mil e dezessete. O dia em que Deise enterrou seu amor ainda vivo na mesma luz da janela pela qual ele voara.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 08/12/2017

A NOVA GERAÇÃO DE PROFESSORES

No meu tempo de aluno tive grandes professores. Os melhores da época. Minha infância e adolescência, se foram enriquecidas por uma vida difícil (e o vejo hoje), também foram pela qualidade dos meus professores. Cada um deles modificou minha vida para melhor, à sua maneira. Apesar das diferenças de cada um, eles tinham uma qualidade comum: eram sábios e queriam dar o melhor de si aos seus alunos.

Hoje acompanho de longe, mas tenho visto uma nova safra professores que orgulharia a geração anterior. Até porque creio que cada pessoa é também fruto da sociedade que o cria. E a cidade, apesar de todos os percalços e dificuldades por que tem passado, ainda consegue formar bons mestres. Mestres sonhadores que querem dar ao mundo o melhor de si.

Há poucos dias vimos no Ibiá o prêmio da professora Daniela Heckler com seu projeto “Arte na escola”. Justo no ensino infantil, um momento sui generis do ser humano. Kipling, que escreveu “Mogli, o menino lobo” já o afirmava: “Deem-me os seis primeiros anos de uma criança, e podem ficar com o resto”.  Se há o que fazer, deve-se começar cedo.

Outro projeto de destaque é o de inclusão e construção da autoestima de crianças negras, encabeçado pela professora Monaliza Furtado através da leitura de autores negros. Finalista do Prêmio RBS de educação, vai trazer bons ventos à educação brasileira.

Resumida, eis nossa educação municipal. Num mundo cada vez mais difícil, a necessidade básica é criar condições para que a meninada avance. Dificuldades serão encaradas com mais coragem e determinação por crianças fruto de projetos e de processos mais humanizados.

Nesta linha, temos os alunos que vencem olimpíadas de matemática; as feiras de ciências cujos projetos levam aos Estados Unidos, todos orientados por professores dedicados, que querem dar o melhor de si aos que querem aprender. Não existe uma “cidade das artes” sem antes haver uma “cidade da educação”.

E sem desconsiderarmos os professores e alunos que não ganham prêmios, mas que fazem seu papel tão bem quanto e que são tão importantes quanto.

Uma sociedade que forja tanta gente boa, em tantos setores diferentes, com tantas qualidades únicas, há tantas décadas, não é uma sociedade qualquer. Montenegro é um criadouro de inteligências. E se hoje, o mar revolto do momento leva o país à deriva e nós com ele, temos estas pessoas que não se entregam; as apostas únicas possíveis de êxito. Se nossa elite dirigente apodreceu, não há saída fora das novas gerações.

Daniela Heckler, Monaliza Furtado e tantos outros professores que fazem a diferença no dia a dia, os que contagiam seus alunos com a curiosidade do saber, que geram projetos científicos, culturais, artísticos; que embebem as crianças de autoestima, de alegria, de paz, de crença em si e no futuro, são estes que precisamos. Estes que os governos massacram, são estes os que precisamos. Estes que a sociedade ignora, são estes os que precisamos.

Se muitos arrefecem, perdem o ímpeto, a motivação, não há como condená-los. A estrutura moderna do país não quer professores motivados. Mas se se motivam mesmo assim, há uma revolução. Escondida na balbúrdia da sala de aula: há uma revolução.

Balzac escreveu: Maldito daquele que não clamar no deserto por pensar que não será ouvido. Daniela, Monaliza e tantos outros estão clamando. Estamos no deserto, mas estamos ouvindo vocês.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá do dia 01/12/2017

AS INFELIZES DORES DO PRECONCEITO

Na música “A lista”, o cantor e poeta Oswaldo Montenegro vai elencando diversas situações que no passado eram importantes e que perderam fôlego no decorrer da vida, tornando-se umas supérfluas, outras grandes demonstrações de imaturidade e preconceito. “Quantos segredos que você guardava /Hoje são bobos, ninguém quer saber”.

Sem querer tirar a importância do fato de que a vida é constituída de fases imaturas, seguidamente olhamos para trás com cara de espanto: eu pensava assim? Eu era essa pérola preconceituosa? É claro também que nem todo mundo evolui e amadurece. Tem gente que se cola num erro aos 12 anos e vai com ele para o túmulo sem percebê-lo. A cegueira é glorificada todos os dias nos templos e na política.

A sociedade já deu importância pejorativa à virgindade, às mães solteiras, à cor da pele, ao gênero, à orientação sexual, à origem étnica; já desqualificou pessoas pelos seus empregos, pelos bairros em que moram, por suas opções culturais e políticas, por suas origens familiares. Preconceitos que até vão sendo superados por pensamentos e políticas públicas de inclusão, tolerância e respeito às minorias. Mas, de vez em quando eles voltam e viram discurso de sociopatas, arrebanhando uma pequena multidão de incautos e os que querem auferir alguma vantagem da violência. Todo mundo sabe, porém, onde a volta destes discursos acabam. Para quem abraça os retrocessos, resta o futuro onde vão ver que: “Quantos segredos que você guardava / Hoje são bobos, ninguém quer saber”.

Todo mundo é fruto de um caldo de cultura onde se banham os prazeres, mas também ódios e preconceitos. Necessidades pessoais, fraquezas longínquas e fracassos modernos às vezes nos levam a querer culpar a parte do mundo menos responsável pela nossa falta de competência. Nosso dedo indicador sempre aponta para o lado mais frágil. E os ditadores de plantão, pastores que apostam em rebanhos desgarrados da humanidade, contam com isto. Resta saber se sucumbiremos a eles ou aos nossos melhores sentimentos.

Deve ser dolorido chegar-se ao fim da vida e perceber que todo o preconceito que alimentamos e propagamos, não fez mais que afastar as pessoas. E que aqueles a quem tornamos infelizes pelo fato de não tolerarmos uma diferença que sequer nos dizia respeito, poderiam ter sido nossos amigos e nos ter feito felizes.

A vida, por ser já de antemão amarga, difícil desde a largada, deveria talvez nos ensinar que discursos de ódio por diferenças gratuitas não nos levam a nada. Não quer dizer que não haja condutas que não devamos lutar contra. Não quer dizer que não haja conceitos que não sejam abomináveis. Mas não deve ser tão difícil perceber e diferenciar os que segregam daqueles que agregam.

A poesia de Oswaldo Montenegro avisa, como toda grande poesia dos grandes poetas. Mas a surdez social é uma doença que leva gerações para ser curada. Sem contar as recaídas.

Cabe insistir com a mesma pertinência da maldade. Cabe insistir com a mesma força com que os preconceitos retornam. Cabe insistir com a veemência dos pacifistas de todas as épocas, de todos os tempos. Como clamam os injustiçados, os torturados, os expulsos de seus lares, os que geram a riqueza do mundo, mas não usufruem dela.

Por que as pessoas alimentam as dores do preconceito para tornar mais gente infeliz, é um mistério. O que sabemos é o que dizem os poetas: Que, feliz e esperançosamente, os pensamentos bobos, no futuro, ninguém quererá saber deles.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 24/11/2017

NOSSOS PIORES PESADELOS

O futuro a Deus pertence diz a sabedoria popular. Se é que vai haver um. Nas nossas divagações ficcionais sobre ele, explodem monstruosidades: Frankenstein, o Soldado Universal, o Exterminador do Futuro na impagável interpretação de Arnold Schwarzenegger. Para dizer só três. Anti-heróis frutos da ciência e da tecnologia cujas qualidades humanas como sentimento e ética, desapareceram.

O avanço científico está a nos dizer que a ficção em breve pode vir a ser real, como num romance de Júlio Verne e suas vinte mil léguas submarinas. Cada vez mais próteses funcionam. Cada vez mais se entende como o corpo humano funciona. Cada vez mais os interesses bélicos e econômicos namoram a pesquisa científica. Já há chips em moscas e baratas com fins de espionagem. Os caras são ninjas.

Há muitos passos ousados sendo dados neste campo. Em 2013 um projeto sobre o cérebro recebeu um financiamento de um bilhão de euros da Comunidade Europeia. Imaginemos um chip que bloqueie ou libere neurotransmissores ao seu bel prazer. Que interfira nos sentidos, nos sentimentos e desejos. O potencial é bombástico e infinito.

Conforme especula Yuval Harari: “… um cyborg eternamente jovem que não procria, não tem sexualidade, que consegue interagir e compartilhar com computadores, que não tem raiva, medo…” E nós também podemos especular: que tipo de sentimento, que tipo de desejo um ser assim pode desenvolver? Estaríamos à beira do super-homem ou dos piores pesadelos da ficção científica?

No andar desta carruagem, a própria palavra “humano” pode mudar de sentido. E que uso farão de saber tão devastador as ideologias, os governos, as religiões?

Parece, de fato, muito assustador. Provavelmente nunca, em toda a história da humanidade, será tão importante participar politicamente do que nos próximos 100 anos. As decisões que serão tomadas e que vão mudar, não só o mundo, mas o conceito de ser humano, deverão ser as mais democráticas possíveis. Para que o maior número de pessoas possa ter a consciência do que, como pergunta o escritor judeu: O que queremos ser e no que queremos nos transformar?

Porque a transformação, lenta e gradual, já começou. E, afinal, inteligência sem consciência representa um caminho sem volta ao inferno.

A interferência da Inteligência Artificial na vida humana dá seus primeiros passos setenta mil anos depois da ascensão do Homo sapiens como o animal que vira deus. Hoje o Facebook, com programas e algoritmos complexos, baseado nas postagens das pessoas, já consegue traçar perfis bem razoáveis das ideias, gostos e valores de seus usuários. Mapas políticos e ideológicos já podem ser intuídos. O Facebook nos conhece melhor que nós mesmos. O que se fará com isso, nem imagino.

Pelo sim, pelo não, há um caminhão de cientistas que afirmam que o cérebro não “pensa” da mesma forma que o computador e que tentar “casá-los” é uma grande bobagem e que tudo é mero teatro para angariar patrocínio.

De qualquer forma, o futuro a deus pertence, seja lá que deus e que futuro sejam. O velho Olimpo grego parece uma premonição com seus deuses humanamente insatisfeitos e irresponsáveis botando terror, terror que sai dos livros e das telas para se transformar em nossos piores pesadelos.

E, se por acaso, você vir por aí alguém parecido com o Schwarzenegger, pelo menos desconfie.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 19/11/2017

OS VIOLINISTAS

Quando fazia suas viagens para escrever seu excelente “Armas, germes e aço”, surpreendeu ao escritor Jared Diamond que havia na Namíbia uma rua chamada “Goering” numa homenagem a Heinrich Goering um dos líderes da colonização alemã daquela parte da África. O impressionante é que esse Goering foi um dos responsáveis pelo primeiro genocídio do século XX, o genocídio dos Hereros, povo que se revoltou contra a colonização alemã.

Ocorre que nada há de surpreendente em haver uma rua com este nome lá. A coisa mais natural do mundo é no fim das contas admirar nossos algozes. A maioria dos povos dominados acabaram por tomar como sua a cultura, os valores, as crenças daqueles que os dominaram e os oprimiram. É só olharmos para um exemplo: o terno e a gravata. Fazem parte da vestimenta “séria” e “elegante” em praticamente todo o planeta.

Nossa tendência em esquecer as maldades que nos são infligidas vem de casa. Todas as famílias tendem a por uma pedra sobre suas desavenças, suas torturas físicas e psicológicas e sobre as injustiças entre quatro paredes. Por fim, este comportamento acaba se transferindo para a sociedade e para a História.

O grande mal deste comportamento, esse de esquecer o que de mal nos foi feito, permite essa verdade filosófica: a de que a história sempre se repete.

O renascimento da intolerância, do fundamentalismo religioso e dos movimentos moralistas deviam nos causar horror por todo mal que já foi feito em seu nome. No entanto, não olhamos para trás. E, mais adiante, teremos que admitir que foi um grande erro. A divisão maniqueísta entre as pessoas, taxando uns e outros de mocinhos e bandidos de acordo com seus gostos, cores e amores, vai acabar em tragédia. O Estado Democrático está dominado pela mão pesada da ignorância e da violência.

Lembro bem do livro “Os violinistas” de Jurgen Mäss. Nele, dois meninos criam-se juntos estudando violino. São amigos apesar das diferentes origens. A música os une. Vão juntos para a orquestra de Berlim às vésperas dos nazistas tomarem o poder. Até que um deles, Carl, entra para a juventude hitlerista.

Vitimado pela lavagem cerebral do Fürh, Carl logo começa a ver no amigo, cujos pais são trabalhadores de fábrica e ativistas sindicais, os “defeitos de sua classe”. Incentivado pela organização e apoiado no sentimento de maior número, Carl começa a perseguir Heinz. As calúnias acabaram por retirar Heinz da orquestra. E a loucura vai num crescendo psicótico até o desfecho, quando Carl invade com a turba a casa da família de Heiz e, em êxtase, confisca seu violino e o incendeia no meio da rua.

Uma das frases marcantes dita por Carl: “a tua gente não merece tocar as músicas que a nossa criou”!

Não sei se o Brasil caminha exatamente para uma coisa assim. Mas é preciso dizer que a História, a Literatura e a Cultura estão repletas de avisos. Se escolhermos este caminho, o do messianismo político e da intolerância será uma opção consciente. E é obrigação de todos fazer estes alertas.

Ou deixamos tudo por isso mesmo, e damos logo nome de rua para o coronel Brilhante Ustra e nome de museu para o MBL.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 03/11/2017

O LADO NEGRO DO PARAÍSO

Não, não vou plagiar o enredo da nova novela da Globo, até porque não assisto. Mas o título é muito bom.  Dei uma mudadinha nele pra entrar num clima de “dark side”, mas paraíso é sempre um tema cativante. Por inalcançável, por inexistente, por ser uma ficção criada pelas boas – e más – intenções humanas. O paraíso é como o horizonte: podemos correr atrás dele, mas nunca o alcançaremos.

Como está fora do alcance, criamos mitos: há quem creia que a morte seja a linha que nos separa dele. Já que é tão difícil criar um paraíso na Terra por conta das imperfeições humanas, que se semeie um depois da morte. Mas, cá entre nós, não é nada provável. Se é que teria graça morar num. Já sentimos o tédio que abate àqueles que não têm nada pelo que lutar. Como ensinam os antigos: o ócio é o jardim do Diabo. Portanto: quem quer um paraíso desses?

E foi Eva quem teve a sacação: deu uma bicada numa “inocente maçã que, tão doce, úmida e eleita, nos tirou do paraíso” como cantou o poeta, e acabou com nossa inocência. E que belo gesto! Foi Eva quem nos livrou do ócio de ganhar tudo de mão beijada. Eva nos libertou de coçar o saco a eternidade inteira. Que mulher!

Não que não devamos buscar o paraíso. O problema é: qual paraíso? Um que nos oprima ou um que nos liberte? Um que nos faça entender a vida ou um que nos escravize? Um que nos permita viver nossa individualidade, ou que pouse a mão de um feitor divino e nos coloque os garrotes e as correntes de uma fé?

A visão de falsos paraísos faz a tragédia humana há milênios. As crenças humanas, a ingenuidade e a boa fé das pessoas, são pão quente nas mãos de facínoras. Claro que é do jogo da liberdade correr riscos. Então, ou deixamos de ser ingênuos, ou o paraíso sempre será mais uma praga do que um prazer. A crueldade está sempre presente: tanto às portas dos paraísos prontos, quanto nos chamados messiânicos para construir um ao custo de milhões de vidas. Não há dó nem piedade nas escadas que levam ao céu ou ao inferno.

Eva nos abriu as portas de diversos paraísos possíveis. Um machado de dois gumes. Comer da árvore do conhecimento, o que ela fez com avidez e gosto, se nos libertou do tédio, também colocou-nos na beira do abismo das graves decisões que a humanidade tem que tomar.

No ano 2000, cientistas franceses pegaram um embrião de uma coelha branca e implantaram em seu DNA um gene de uma água-viva verde fluorescente e criaram a primeira coelha fluorescente da história. Eva nos deu a petulância da possibilidade de brincar de deus.

Não sabemos ao certo o que fazer com a espada do conhecimento. Desde que a tiramos da bainha e a brandimos contra a ignorância, temos ao mesmo tempo pagado o pato dos excessos, da falta de controles, da destruição do planeta, planeta que é nossa casa e conforto.

Não nos demos conta ainda que a parte mais difícil, que foi cortar o cordão umbilical com o misticismo barato e sem lógica, já o fizemos. No entanto, continuamos dando oportunidades à criação de novos e falsos paraísos. Messias doentes e falsos profetas seguem extorquindo a crença pela TV em nome de paraísos.

Eva nos arrancou de um deles como uma mãe nos expulsa do útero, do seu aquário, e nos presenteou com o lado negro do paraíso: a liberdade e a vida para ser vivida! Viva Eva!

Agora, alguém sabe direito o que fazer com estes brinquedinhos que ela nos deu?

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 27/10/2017

O QUE É ISSO, A FELICIDADE?

Diz-se que a felicidade não tem uma história. História no sentido científico: estuda-se a economia, a política, as guerras, o corpo humano. Mas quem estuda a felicidade? Só as pessoas do facebook que escrevem “bora lá ser feliz”. Vivemos de aparências; e nada mais aparente hoje do que as redes sociais. Antes eram os bailes de gala, as festas de 15 anos, os suntuosos casamentos. Agora simplificou: qualquer um posta um sorriso e diz “bora lá ser feliz”. Mas é isso, a felicidade? E a convivência conflituosa entre coração e mente?

A felicidade carece de estudo. De saber-se o que faz um ser humano feliz e o que não. Se é comida em abundância, emoções em abundância, poder em abundância. Enfim, se é a abundância, ou a falta dela. A felicidade muda conforme a época, conforme a idade?

O bioquímico Severo Ochoa, que descobriu que a vida é essencialmente proteínas e que ela é quase toda explicável em termos químicos, afirmou: O amor é Física e Química, e nada mais do que isto. Não há nenhum glamour por detrás de amar.

Para a grande maioria das pessoas que amam – ou odeiam, o que dá no mesmo – pouco importa o que seja o amor e o ódio. Se é filosófico, psicológico, físico-químico. Importa é que existe. A biologia que se preocupe com o “como existe”. O mesmo se pode dizer da felicidade. O que ela é? O que ela foi através dos tempos? O que exatamente faz com que nos sintamos felizes? O que isso faz com nossa vida? Que sentimentos decidem nossa felicidade? Como a felicidade move os homens e as sociedades?

Para uns, felicidade é ter paz. Mas conheço várias pessoas que só atiçam incêndios. Logo, felicidade para eles, é conflito.

Para uns, felicidade está na religião, para outros, na ideologia. Há os que creem que a felicidade está em regar plantas todos os dias, ter dezoito filhos, vestir-se de gaúcho, comer bem. A felicidade de cada um parece estar ligada aquilo que a pessoa acredita seja uma coisa legal. Não poder viver algo que ache legal, transforma-se em tristeza. Cada um tem sua régua para a felicidade.

Contudo, a biologia continua afirmando que não há nenhum sentido para a vida. A não ser aquele que a gente inventa para ela. E cada um dá sentido para sua vida até o tamanho de suas expectativas. O suficiente para os neurotransmissores darem banhos de prazer no cérebro o que, quem sabe, pode ser a felicidade.

Sigmund Freud disse que quem descobriu o inconsciente foram os poetas e os filósofos. Ele só descobriu um modo científico de estudá-lo. A felicidade também é a ilusão do poeta que existe em nós. O poeta que existe em nós gosta muito de nos impregnar de uma grandeza teórica e filosófica que às vezes esconde a realidade por detrás de uma fantasia.

Mas quem está preocupado com estes rodeios? O negócio é “bora lá ser feliz”! A medicina, pragmática, é o “Freud” da felicidade”. Achou nela uma equação bioquímica e criou remédios que a prometem. E já há quem os tome e se sinta feliz.

Felicidade é uma palavra em busca de um significado e um sentido. A vida é um mar de tragédias e injustiças, nada mais necessário que uma grande fantasia. Pela diversidade do ser humano, a fantasia da felicidade é pessoal e intransferível.

A história da felicidade ainda não foi contada. Enquanto ela não vem, resta acreditar na felicidade fácil do Facebook. “Bora lá ser feliz”. Porém, o coração sempre refém da mente.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 20/10/2017.

O ÚLTIMO HOMEM DA TASMÂNIA

Entre os anos de 1769 e 1770, o navegador inglês James Cook foi até a Austrália e a Nova Zelândia e reivindicou estas terras para a coroa britânica. Cem anos depois haviam dizimado 90% da população local. Pior fizeram na Tasmânia, ali do ladinho. Exterminaram 100%. O cadáver do último tasmaniano só foi enterrado em 1976, depois de permanecer por décadas a ser dissecado para estudos e exposições.

Nossa selvageria não começou ali, óbvio. Começou desde sempre. E por mais que a humanidade avance – se é que avança, somos incapazes de reconhecer o selvagem em nós e transformá-lo.

Precisaríamos de milhares de páginas para descrever tudo o que existia antes de nós, e o que extinguimos com nossa presença.  O que havia na terra, animais, plantas e gente diferente, demos um jeito em quase tudo. Restam os polos cujo frio extremo protege e os mares indomáveis. Por pouco tempo.

E a nossa selvageria não se resume às nossas relações com o planeta e com povos “estranhos”. Nossa selvageria está também intrinsicamente ligada à nossa aversão às diferenças de ideias e comportamentos e como podemos fazer disso cavalo de batalha em busca de poder e dinheiro. Ela é também usada na política quando se apropria do medo e da ignorância das pessoas para ocupar espaço público e enfim chegar ao objetivo: o dinheiro público.

Nas discussões sobre o aborto, por exemplo: discutimos a defesa do feto. Depois que ele se transforma numa criança e vaga pelas ruas das grandes cidades sem pai nem mãe, já não são mais os mesmos que a defendem. Os que obrigaram aquela criança a nascer, por força de leis, religiões ou ideologias, as esquecem. Já não servem mais ao objetivo. Agora é chamar as armas para contê-los. É mais do que óbvio que, se a sociedade obriga a mulher a dar a luz a um embrião, esta mesma sociedade deveria fazer de tudo para que a criança tenha um mínimo de estrutura material e emocional para sobreviver. Só que não.

Hipocritamente, alguns de nós pegamos uns quadros de uma exposição e nos utilizamos deles para explorar o medo e o preconceito. Porém, Sobre crianças que assistem pais e irmãos mais velhos fazendo sexo nos casebres ínfimos da pobreza brasileira, nenhuma palavra. Dois locais onde há maior número de abusos, como igrejas e as casas das próprias crianças, estes mesmos “alguns de nós” nada dizem. Não querem interditar igrejas. Mais fácil um museu, onde quase ninguém vai.

Nossos medos, preconceitos e ignorância a respeito dos fatos são fonte de selvageria. E eles sabem disso. Fazem manifestação por armas, exércitos, penas de morte. Não por um governo democrático que defenda o cidadão e ao mesmo tempo dialogue com a diversidade e as múltiplas formas de cada um viver a sua vida.

Não querem diálogo. Querem espaço político para acessar o dinheiro público. É só ver onde estão as lideranças destes movimentos. É tudo por dinheiro. E nós com nosso silencio, com nossa conivência surda, porque eles são mais ousados, mais determinados, vamos concedendo espaço. Em breve estarão nos governando.

O Brasil está se transformando numa Tasmânia. Em nome de uma moral duvidosa querem destruir a diversidade que nos caracteriza e com a qual são incapazes de conviver. Como o último homem daquela civilização, é muito provável que neste caminhar, as gerações futuras só verão a liberdade em museus. Isso se não houver algum maluco à sua porta fechando a exposição vociferando que liberdade não é arte.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 13/10/2017

 

ATÉ A GIGANTE VERMELHA

Gilgamesh é um mito sumério. Conta a história de um rei que não queria morrer e para isso foi até os confins do universo para enfrentar a morte. No entanto, voltou de sua jornada ainda mortal. Concluiu, depois de muitas batalhas, que a luta contra a morte era impossível e só restava conviver com a dor de perecer.

Contudo, 4.700 anos depois, solitários cientistas, sem pompas de reis ou mitos, os Gilgamesh pós-modernos, têm conseguido impor derrotas significativas à morte. Antibióticos, transplantes, quimioterapia, mapeamento do DNA, afirmam: Gilgamesh vencerá. Se não ele, seus descendentes.

Religiões e filosofias que só fizeram debater e enaltecer a morte, e a vida depois dela, aos poucos vão perdendo o sentido. Conforme o escritor Yuval Harari: “Especialistas em nanotecnologia estão desenvolvendo um sistema imunológico composto de milhões de nanorobôs, que habitariam nossos corpos, abririam vasos sanguíneos obstruídos, combateriam vírus e bactérias, eliminariam células cancerosas (…)”.

Há quem creia, contudo, que injetar robozinhos microscópicos no ser humano só fará dele mais um autômato a serviço do poder.

Pode ser. É provável que, se as sociedades futuras forem democráticas, teremos um código de ética para estes robozinhos. Sabe-se lá. O que se pode dizer com certeza é que: mais incerta do que a morte, será o que a sociedade fará com a vida que queremos manter eterna.

Lógico que, apesar dos grandes avanços dos últimos cem anos, certas ideias ainda estão mais para ficção científica do que para a realidade. Mas o troço tá andando rápido. Há muito tempo não é mais como antes. Antes um cara nascia, crescia e morria com os mesmos valores, as mesmas tecnologias, as mesmas porcarias dia após dia. Agora não é mais assim. O cara nasce no Orkut e é adolescente no Tinder. Como vai ficar adulto, como vai envelhecer, isso nem o Google sabe. Que dirá deus!

O futuro é tão incerto, há tantas possibilidades de escolha de um, que esta incerteza se transforma numa esperança. Se inventarem a vida eterna, o que será de nós?

A arte discutiu isso. A eterna juventude no pacto de Fausto com o demônio. A imortalidade assassina de Drácula. A ficção do Novo Testamento. Todas pregando a imortalidade como uma coisa doentia. E talvez seja. Já imaginaram os seres humanos não se renovando, pensando sempre a mesma coisa durante séculos? Já imaginaram Hitler vivendo para sempre? Ou o Bolsonaro?

Por sorte, a natureza parece ter previsto nossa capacidade de encontrar solução para a morte. Para isso a natureza mata estrelas. O sol, como sabem, não durará para sempre. Um dia vai queimar todo seu hidrogênio e vai se transformar numa gigante vermelha, que vai engolir e incinerar todos os planetas que a orbitam.

Vai demorar um tempinho. Tá, um grande tempinho. E podemos acabar com tudo no meio do caminho. Poluição, radiação, o fim da água. Sabe-se lá o que vamos inventar para minar nosso futuro. Se não colocarmos nenhum membro do MBL numa cápsula para sobreviver em outro planeta, já está bom. Kripton não merece de um plágio tão degradante.

É provável que estes loucos façam o serviço em breve, mas se não o fizerem, Gilgamesh perderá sua batalha de qualquer maneira. Porque a natureza decidiu há muito tempo: as estrelas morrem para que nada, nem ninguém, seja eterno!

(Crônica publicada no Jornal Ibiá de 06/10/17)