ENVELHECER

Não espere de mim
mais do que fui
não espere por mim.

As horas se tornam
mais longas que os dias
e o passado não soterra
mais nada
sequer o nada.

Envelhecer é um ato solitário de andar
como quem não anda

como quem adia

outro ato solitário
de heroísmo

o de adiar
seu último dia.

Não espere de mim
mais do que pude
que nem eu mais
espero por mim.

A vida é uma música
que se canta antes do silêncio

um interlúdio do fim

uma espera adiada
uma voz se calando ao poucos

e mais nada.

A VIDA É TERNA

A vida é terna
e ternura é mais
que eternidade.

É saudade
o que resta partido
despedaçado no tempo
antes mesmo de se haver perdido.

Há uma doce tristeza
em perder-se o sentido
a certeza, o norte
um amor para sempre.

Perder
é a poesia da amargura
da alegria ressentida
que nos apodrece todo dia
na procura

de um sentido
e do encontro do insensato.

O absurdo
é o melhor retrato
que tiramos com vida.

ANTE TEU CORPO

Sou um vândalo ante teu corpo

Teu corpo-taça

Onde bebo meu desejo e o teu

Teu prazer e o meu

 

sonâmbulo

em minhas mãos

Tudo que é teu se despedaça

Inclusive eu

 

ando na noite sem fim

no vago vácuo

entre o teu não

e a tensão

do meu sim

 

o copo com nossos sonhos está vazio

e meu coração

porque ninguém nunca foi alguém

Sem um corpo estatelado

no cio.

 

QUANDO TEU CORAÇÃO

Quando teu coração

pegou na mão do meu e foram voar

imaginei um mundo.

Pensei ser teu abrigo

e tu o meu

pensei em dançar

contigo

tu e eu

no assobio de um passarinho.

 

Mas o amor não é um caminho

o amor é um voo desolado

que meu coração alçava

antes do teu ir embora.

 

Ainda flerto com os espaços vazios

os cios

da aurora

meu labirinto-ninho

que é pousar no nada

Sozinho.

 

 

A TUA VOZ

Eu queria calar tudo que já disse
e reescrever a única voz
que ainda faz sentido

A palavra que me inquieta
que chama a madrugada
e a me dá de presente
como um grito
Incontido

O som limpo de uma voz apaixonada
que quando me pronuncia me descobre
e eu passo a ser mar à vista e terra e eu e tudo

do nada

Eu só me reconheço
quando ela sussurra em meu ouvido
seu hálito cor de laranja
e lambe
o que fui ferido
dos meus pesadelos

É quando me torno seu hábito
na noite negra da vida

atado aos seus pelos
pela mesma ferida

É urgente, pois, que eu não partisse
antes de sua voz ressoar
todos os poemas
que eu ainda não disse.

FALAR DE AMOR

Vamos falar de amor

não vamos esperar as abelhas tombarem sobre as flores
e o que era viço virar túmulo.

Não quero a luz do sol ressequida
antes que eu possa beijar-te as pálpebras
e ver tuas sementes jogadas pelos campos
enquanto rimos dos redemoinhos de vento.

Eu te espero como sempre te esperei antes de te conhecer.
Quando ainda havia um lapso de tempo entre nós.

Vamos falar de amor

enquanto a primavera envelhece conosco
e tua língua seja a palavra viva, vermelha e densa
a tocar o último e único céu que me resta.

Vamos falar de amor

vamos falar dos meus braços abertos
e tua nudez semeada por tudo que mói o tempo.

Vamos falar de amor

do meu amor coberto pelas folhas amarelas
que a árvore de tua vida me empresta
para que eu enfrente meu inverno.

Eu te espero como sempre te esperei antes de te conhecer

como uma violeta que pende de um vulcão
eu me dispo do meu corpo

para tomar o teu como meu.