PAIXÃO E CRIME

 

PAIXÃO E CRIME

O mar profundo, o universo e seus enigmas ou a mente humana? O que é mais complexo, mais incompreensível? O que mais bate no nosso dia a dia?

O que mais nos impacta enquanto sociedade: terremotos em grandes profundezas e seus tsunamis, explosões de quasares e suas ondas eletromagnéticas ou o impacto de inúmeras cargas emotivas na cabeça de um sujeito?

Indo mais longe: o que nos leva a destruir quem amamos? O que leva, por exemplo, um homem a matar sua companheira, a mulher que muitas vezes ama (para não dizer sempre)?
Explicações teóricas há diversas. Tantas plausíveis e com sentido. Mas a violência parece não ter justificativas. E se buscamos teorias, não encontramos paz nelas.

A cultura, a evolução da democracia, do respeito às vontades alheias, têm até evoluído a sociedade. Todas estas atenções funcionam como inibidores de violência, como travas aos instintos, aos pré-históricos sentimentos que regiam o ser humano primordial, mas que continuam dentro de nós, latentes, como o magma de um vulcão. O número de casais que se separam sem violência é enormemente maior. No entanto, o que nos chama a atenção são sempre as exceções. Temos, pois, que diminuir drasticamente as exceções.

E se a cultura tem feito seu papel no decorrer dos milênios, não é menos verdade que de vez em quando alguém explode e reascende o que dormia na paz do amor. E talvez seja um erro dizer “na paz do amor”. Não há garantias de que o amor seja um sentimento pacífico. Tanto que em nome dele as maiores atrocidades já foram perpetradas. O amor tem seus sentimentos paralelos: posse, ciúmes, controle, exclusividade sexual. Um caldo que quando ferve, sai de baixo.

A violência conjugal não está fora dos demais contextos de violência da sociedade. E hoje, a criminalidade, o debate sobre armas, as liberalidades sexuais, demonstram que esta transição por qual passamos, de um mundo moralista para uma sociedade mais democrática em todos os sentidos, tem deixado os nervos de todos à flor da pele.

A passionalidade e seus crimes hediondos não estão somente nos romances. Estão também na religião, na política, no futebol. Onde entra um certo fanatismo (e o amor por si só é um sentimento fanático), a violência, a desforra, o pavio curto também estão presentes. Se a sociedade não jogar a malha dura da lei sobre este momento, continuaremos a ver o que temos de pior gerindo nosso dia a dia.

Por fim, o grande mar profundo, o grande universo somos nós, as pessoas, que somos tão complexos no mar e no universo das coisas simples. Somos a grande incógnita do mundo, já que nos desenvolvemos sozinhos num mar e num universo de leis físicas prontas. As leis da natureza que regem o mundo, apanham do nosso comportamento.

Nós somos o contraponto. Nós somos o novo. Nós somos o inesperado dentro da natureza. Não agimos conforme o previsto. Ainda estamos desenvolvendo padrões, comportamentos, dominando instintos. E ainda vamos matar muito por isso.

Mas vamos, ao mesmo tempo, continuar nos indignando com toda e qualquer forma de violência, pois está escrito, e se não estava, está agora, que nosso papel no universo a natureza não previu: é humanizá-lo.

 

(Publicado no Jornal Ibiá de 12/01/2018)

 

A TERRA É PLANA

 

 

Que me perdoem os professores de geografia, os astrofísicos, e os que gostam de ser enganados, mas a Terra é plana. Mesmo que um grego, antes de Cristo, tenha medido a circunferência do planeta, a Terra é plana. Mesmo que os programas espaciais digam que colocamos satélites em órbita. Eu não acredito em fotos de satélites, transmissões via satélite do outro lado do mundo. O mundo não tem outro lado. A Terra é plana.

E porque é plana? É plana porque… porque… há um abismo depois do horizonte. Quem chegou à sua beirada caiu nele. Não há lógica em não estarmos de cabeça para baixo na parte de baixo da esfera. Logo, não é uma esfera. E o céu? O céu onde está Deus, não pode estar embaixo. Lá é o inferno. Não pode haver um céu em cima e outro embaixo. A Terra é plana!

As pessoas gostam de ir atrás de lorotas. Ficam questionando para onde vai a água do mar que cai no fim do horizonte ou como seriam os vulcões na parte de baixo. A água do mar não cai. Ela só fica ali, na beiradinha. Mas não cai. O paredão de gelo dos polos a segura. É simples. E é óbvio que não há vulcões virados para baixo. Qualquer avião já poderia ter documentado isto. E porque não documentam? Porque a Nasa não permite. É tão óbvio. Somos reféns da sociedade tecnológica americana. Computadores, celulares, internet, televisão, Facebook. Estas coisas todas que nos escravizam e não nos permitem ver que a Terra é plana. Eles nos impõem o que querem. Querem que pensemos que a Terra é redonda. Mas não vamos nos submeter. Não a isso! Estou saindo da Matrix.

A gente fica acreditando que o homem pisou na lua, que fazemos viagens espaciais, que satélites fazem transmissão de futebol. Eles acham que somos trouxas.

E mais: além de plana, a Terra também é oca. É lá, bem lá no fundo, que os extraterrestres montaram suas bases e nos monitoram. As pessoas comuns não acreditam nisso. Mas eu não sou uma pessoa comum.

Sei que o fato da Terra ser plana quase não sobra espaço para que ela seja oca. E morar tão perto do magma deve ser um problema, mas são ETs e devem ter uma solução que não conhecemos. Por isso eles são ETs e nós terráqueos. Ou você é daqueles que não acredita em ETs?

O que sei, e sei com certeza, é que há forças que querem nos manipular. Manipular nossos conhecimentos e nos fazer crer em coisas que não são reais. Como querem nos fazer crer que a Terra seja redonda. Pode haver estupidez maior? E se é uma coisa que não sou, é estúpido.

Para nossa sorte, as coisas estão mudando no mundo. A inteligência está voltando à nossa Terra plana, as coisas devem mudar. Está mais que na hora de quebrarmos este paradigma de crer que a ciência explica tudo. A ciência também está a serviço de alguém. Ensinar nas escolas que a Terra é redonda é um crime contra as novas gerações. Nossa bancada no Congresso já está bolando uma lei que democratize o ensino e ponha fé e ciência no mesmo patamar de importância e permita que nós que sabemos com certeza que a Terra é plana, possamos também entrar em sala de aula e ensinar.

Quero dizer, enfim, que este é só o começo. Vamos revisar todas as visões de mundo. Que me perdoem os professores de geografia, os astrofísicos, e os que gostam de ser enganados, mas a Terra é plana.

Vamos acabar com o planeta. Digo, com a ideia de planeta redondo. A Terra é plana!

(Publicado no Jornal Ibiá em 22/12/2017)

 

 

O DIA EM QUE O AMOR MORREU

Eram quatro da manhã. O telefone tocou. Tinham jogado um travesseiro sobre ele na hora do sexo. O som saiu abafado. Carlos não acordou. Deise sim.

–Oi? – atendeu quase sem voz.

– Chama o Carlos, disse uma voz impositiva no outro lado da linha. Uma voz feminina.

– Ca… – Deise chegou a dizer, mas não foi até o fim. – Olha, ele tá dormindo…

– Não quero saber, disse a voz impositiva. Chama ele agora!, e enfatizou a palavra “agora”.

Entre o sono e a vigília, Deise fez o que a mulher mandava. Sacudiu o marido e disse: – Carlos, é pra ti.

Carlos virou-se e pegou o telefone. Ainda disse: – que merda é essa a essa hora?, quando ouviu a voz: – Quero te ver. Vem aqui! – E Carlos acordou de vez.

Sentou na cama. Um filete de suor começou a escorrer desde a testa. – Oi? – respondeu.

– Vem aqui agora ou vou aí.

Carlos colocou o telefone no colo. Olhou para Deise e pensou: não era um sonho. Não era um filme destes em que o protagonista sabe o que fazer. Não sabia. Deise também acordou. – Que foi, Carlos? Quem é?

– Vou ter que sair. – Foi quando Deise acordou definitivamente.

– Como sair, Carlos?

– Sair, Deise. Sair! Sair! – E já foi levantando, nervoso.

– Quem era no telefone?

– Volto mais tarde.

– Se tu sair agora, não vai mais me encontrar aqui – ela disse levantando também.

Ele pensou um pouco. Depois escolheu: vestiu uma roupa , crispou os lábios com quem não tem o que fazer e saiu.

Deise ficou sozinha. Furiosa, derrubou mala do armário, gritou, jogou roupas dentro, chamou de “aquela puta”, vestiu a primeira calça que encontrou, a primeira blusa. Titubeou em frente à porta e retornou. Foi ao quarto dos filhos dele, que criava como mãe e deu uma olhada. A última. Foi quando as lágrimas tomaram o lugar da dor. A fragilidade, o lugar da força. A mágoa, o lugar do perdão.  Não podia voltar atrás e saiu.

Eram quatro e trinta da manhã quando se sentou num dos bancos da Praça Rui Barbosa. Não podia acordar parentes; a mãe ou a irmã. Tinha vergonha. Tinha medo. O ódio atou um nó em sua garganta que prendeu o choro. O amor foi escorrendo entre seus dedos e por mais que abrisse as palmas das mãos para segurá-lo, ele escoava. Cada lembrança, uma mágoa. Não tinha volta. Pensou em ir a um hotel, mas a rua vazia, a praça vazia, a vida vazia lhe dava forças para ficar ali sentada, esperando o dia amanhecer.

Quando o sol raiou bateu à porta da casa da mãe. Ainda tenho um quarto? Perguntou. A mãe disse sim. Mas ela própria não respondeu as perguntas que a mãe fez sobre a hora, sobre a mala, sobre a cara de quem não dormira. Só respondeu quando a pergunta sobre Carlos. – Tá com a Ane!

Deitou na cama antiga e abraçou o travesseiro. Pensou que podia ser criança outra vez. Mas não era. Pensou que o amor não nasce nem morre de uma hora para outra. São como a vida. Nascem aos poucos, morrem aos poucos. E agora tinha que matá-lo. Angustiada, levantou e foi se sentar em frente à janela iluminada. Seu amor fugira como fogem os passarinhos. Escapam das mãos da gente e saem sem rumo pela primeira luz que encontram e nunca mais os vemos.

Era dia oito, oito de dezembro. Dois mil e dezessete. O dia em que Deise enterrou seu amor ainda vivo na mesma luz da janela pela qual ele voara.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 08/12/2017

A NOVA GERAÇÃO DE PROFESSORES

No meu tempo de aluno tive grandes professores. Os melhores da época. Minha infância e adolescência, se foram enriquecidas por uma vida difícil (e o vejo hoje), também foram pela qualidade dos meus professores. Cada um deles modificou minha vida para melhor, à sua maneira. Apesar das diferenças de cada um, eles tinham uma qualidade comum: eram sábios e queriam dar o melhor de si aos seus alunos.

Hoje acompanho de longe, mas tenho visto uma nova safra professores que orgulharia a geração anterior. Até porque creio que cada pessoa é também fruto da sociedade que o cria. E a cidade, apesar de todos os percalços e dificuldades por que tem passado, ainda consegue formar bons mestres. Mestres sonhadores que querem dar ao mundo o melhor de si.

Há poucos dias vimos no Ibiá o prêmio da professora Daniela Heckler com seu projeto “Arte na escola”. Justo no ensino infantil, um momento sui generis do ser humano. Kipling, que escreveu “Mogli, o menino lobo” já o afirmava: “Deem-me os seis primeiros anos de uma criança, e podem ficar com o resto”.  Se há o que fazer, deve-se começar cedo.

Outro projeto de destaque é o de inclusão e construção da autoestima de crianças negras, encabeçado pela professora Monaliza Furtado através da leitura de autores negros. Finalista do Prêmio RBS de educação, vai trazer bons ventos à educação brasileira.

Resumida, eis nossa educação municipal. Num mundo cada vez mais difícil, a necessidade básica é criar condições para que a meninada avance. Dificuldades serão encaradas com mais coragem e determinação por crianças fruto de projetos e de processos mais humanizados.

Nesta linha, temos os alunos que vencem olimpíadas de matemática; as feiras de ciências cujos projetos levam aos Estados Unidos, todos orientados por professores dedicados, que querem dar o melhor de si aos que querem aprender. Não existe uma “cidade das artes” sem antes haver uma “cidade da educação”.

E sem desconsiderarmos os professores e alunos que não ganham prêmios, mas que fazem seu papel tão bem quanto e que são tão importantes quanto.

Uma sociedade que forja tanta gente boa, em tantos setores diferentes, com tantas qualidades únicas, há tantas décadas, não é uma sociedade qualquer. Montenegro é um criadouro de inteligências. E se hoje, o mar revolto do momento leva o país à deriva e nós com ele, temos estas pessoas que não se entregam; as apostas únicas possíveis de êxito. Se nossa elite dirigente apodreceu, não há saída fora das novas gerações.

Daniela Heckler, Monaliza Furtado e tantos outros professores que fazem a diferença no dia a dia, os que contagiam seus alunos com a curiosidade do saber, que geram projetos científicos, culturais, artísticos; que embebem as crianças de autoestima, de alegria, de paz, de crença em si e no futuro, são estes que precisamos. Estes que os governos massacram, são estes os que precisamos. Estes que a sociedade ignora, são estes os que precisamos.

Se muitos arrefecem, perdem o ímpeto, a motivação, não há como condená-los. A estrutura moderna do país não quer professores motivados. Mas se se motivam mesmo assim, há uma revolução. Escondida na balbúrdia da sala de aula: há uma revolução.

Balzac escreveu: Maldito daquele que não clamar no deserto por pensar que não será ouvido. Daniela, Monaliza e tantos outros estão clamando. Estamos no deserto, mas estamos ouvindo vocês.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá do dia 01/12/2017

Antologias e coletâneas

Sempre é importante participar de antologias e coletâneas. Orgulho-me de todas. Em 1994 participei de duas. Do Concurso Literário Felippe D’Oliveira, da cidade de Santa Maria, com o conto “Um dia a lua cai” que tirou primeiro lugar e do livro “Contos que vêm de onde?” publicado pela Editora Unisinos, que comemorava os 25 anos da Universidade.

Em 1995, a cidade de São José dos Campos publicou duas antologias. Uma de contos e uma de poesia. Participei das duas. Da X Antologia Poética HELIO PINTO FERREIRA, e da VIII Antologia de Contos ALBERTO RENART com o conto “Uma angustiada espera”.

Mais tarde, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul publicou duas antologias poéticas. Ambas organizadas por Dilan Camargo. Uma em 2001 e outra em 2013. Nas duas tive poemas publicados.

Devo dizer que todas estas publicações me fizeram ser feliz com elas. Através delas, a Literatura me fez pertencer ao mundo, ao meu mundo, que é este, o mundo das palavras.

OS VIOLINISTAS

Quando fazia suas viagens para escrever seu excelente “Armas, germes e aço”, surpreendeu ao escritor Jared Diamond que havia na Namíbia uma rua chamada “Goering” numa homenagem a Heinrich Goering um dos líderes da colonização alemã daquela parte da África. O impressionante é que esse Goering foi um dos responsáveis pelo primeiro genocídio do século XX, o genocídio dos Hereros, povo que se revoltou contra a colonização alemã.

Ocorre que nada há de surpreendente em haver uma rua com este nome lá. A coisa mais natural do mundo é no fim das contas admirar nossos algozes. A maioria dos povos dominados acabaram por tomar como sua a cultura, os valores, as crenças daqueles que os dominaram e os oprimiram. É só olharmos para um exemplo: o terno e a gravata. Fazem parte da vestimenta “séria” e “elegante” em praticamente todo o planeta.

Nossa tendência em esquecer as maldades que nos são infligidas vem de casa. Todas as famílias tendem a por uma pedra sobre suas desavenças, suas torturas físicas e psicológicas e sobre as injustiças entre quatro paredes. Por fim, este comportamento acaba se transferindo para a sociedade e para a História.

O grande mal deste comportamento, esse de esquecer o que de mal nos foi feito, permite essa verdade filosófica: a de que a história sempre se repete.

O renascimento da intolerância, do fundamentalismo religioso e dos movimentos moralistas deviam nos causar horror por todo mal que já foi feito em seu nome. No entanto, não olhamos para trás. E, mais adiante, teremos que admitir que foi um grande erro. A divisão maniqueísta entre as pessoas, taxando uns e outros de mocinhos e bandidos de acordo com seus gostos, cores e amores, vai acabar em tragédia. O Estado Democrático está dominado pela mão pesada da ignorância e da violência.

Lembro bem do livro “Os violinistas” de Jurgen Mäss. Nele, dois meninos criam-se juntos estudando violino. São amigos apesar das diferentes origens. A música os une. Vão juntos para a orquestra de Berlim às vésperas dos nazistas tomarem o poder. Até que um deles, Carl, entra para a juventude hitlerista.

Vitimado pela lavagem cerebral do Fürh, Carl logo começa a ver no amigo, cujos pais são trabalhadores de fábrica e ativistas sindicais, os “defeitos de sua classe”. Incentivado pela organização e apoiado no sentimento de maior número, Carl começa a perseguir Heinz. As calúnias acabaram por retirar Heinz da orquestra. E a loucura vai num crescendo psicótico até o desfecho, quando Carl invade com a turba a casa da família de Heiz e, em êxtase, confisca seu violino e o incendeia no meio da rua.

Uma das frases marcantes dita por Carl: “a tua gente não merece tocar as músicas que a nossa criou”!

Não sei se o Brasil caminha exatamente para uma coisa assim. Mas é preciso dizer que a História, a Literatura e a Cultura estão repletas de avisos. Se escolhermos este caminho, o do messianismo político e da intolerância será uma opção consciente. E é obrigação de todos fazer estes alertas.

Ou deixamos tudo por isso mesmo, e damos logo nome de rua para o coronel Brilhante Ustra e nome de museu para o MBL.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 03/11/2017