O QUE É ISSO, A FELICIDADE?

Diz-se que a felicidade não tem uma história. História no sentido científico: estuda-se a economia, a política, as guerras, o corpo humano. Mas quem estuda a felicidade? Só as pessoas do facebook que escrevem “bora lá ser feliz”. Vivemos de aparências; e nada mais aparente hoje do que as redes sociais. Antes eram os bailes de gala, as festas de 15 anos, os suntuosos casamentos. Agora simplificou: qualquer um posta um sorriso e diz “bora lá ser feliz”. Mas é isso, a felicidade? E a convivência conflituosa entre coração e mente?

A felicidade carece de estudo. De saber-se o que faz um ser humano feliz e o que não. Se é comida em abundância, emoções em abundância, poder em abundância. Enfim, se é a abundância, ou a falta dela. A felicidade muda conforme a época, conforme a idade?

O bioquímico Severo Ochoa, que descobriu que a vida é essencialmente proteínas e que ela é quase toda explicável em termos químicos, afirmou: O amor é Física e Química, e nada mais do que isto. Não há nenhum glamour por detrás de amar.

Para a grande maioria das pessoas que amam – ou odeiam, o que dá no mesmo – pouco importa o que seja o amor e o ódio. Se é filosófico, psicológico, físico-químico. Importa é que existe. A biologia que se preocupe com o “como existe”. O mesmo se pode dizer da felicidade. O que ela é? O que ela foi através dos tempos? O que exatamente faz com que nos sintamos felizes? O que isso faz com nossa vida? Que sentimentos decidem nossa felicidade? Como a felicidade move os homens e as sociedades?

Para uns, felicidade é ter paz. Mas conheço várias pessoas que só atiçam incêndios. Logo, felicidade para eles, é conflito.

Para uns, felicidade está na religião, para outros, na ideologia. Há os que creem que a felicidade está em regar plantas todos os dias, ter dezoito filhos, vestir-se de gaúcho, comer bem. A felicidade de cada um parece estar ligada aquilo que a pessoa acredita seja uma coisa legal. Não poder viver algo que ache legal, transforma-se em tristeza. Cada um tem sua régua para a felicidade.

Contudo, a biologia continua afirmando que não há nenhum sentido para a vida. A não ser aquele que a gente inventa para ela. E cada um dá sentido para sua vida até o tamanho de suas expectativas. O suficiente para os neurotransmissores darem banhos de prazer no cérebro o que, quem sabe, pode ser a felicidade.

Sigmund Freud disse que quem descobriu o inconsciente foram os poetas e os filósofos. Ele só descobriu um modo científico de estudá-lo. A felicidade também é a ilusão do poeta que existe em nós. O poeta que existe em nós gosta muito de nos impregnar de uma grandeza teórica e filosófica que às vezes esconde a realidade por detrás de uma fantasia.

Mas quem está preocupado com estes rodeios? O negócio é “bora lá ser feliz”! A medicina, pragmática, é o “Freud” da felicidade”. Achou nela uma equação bioquímica e criou remédios que a prometem. E já há quem os tome e se sinta feliz.

Felicidade é uma palavra em busca de um significado e um sentido. A vida é um mar de tragédias e injustiças, nada mais necessário que uma grande fantasia. Pela diversidade do ser humano, a fantasia da felicidade é pessoal e intransferível.

A história da felicidade ainda não foi contada. Enquanto ela não vem, resta acreditar na felicidade fácil do Facebook. “Bora lá ser feliz”. Porém, o coração sempre refém da mente.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá em 20/10/2017.