QUANDO TEU CORAÇÃO

Quando teu coração

pegou na mão do meu e foram voar

imaginei um mundo.

Pensei ser teu abrigo

e tu o meu

pensei em dançar

contigo

tu e eu

no assobio de um passarinho.

 

Mas o amor não é um caminho

o amor é um voo desolado

que meu coração alçava

antes do teu ir embora.

 

Ainda flerto com os espaços vazios

os cios

da aurora

meu labirinto-ninho

que é pousar no nada

Sozinho.

 

 

Antologias e coletâneas

Sempre é importante participar de antologias e coletâneas. Orgulho-me de todas. Em 1994 participei de duas. Do Concurso Literário Felippe D’Oliveira, da cidade de Santa Maria, com o conto “Um dia a lua cai” que tirou primeiro lugar e do livro “Contos que vêm de onde?” publicado pela Editora Unisinos, que comemorava os 25 anos da Universidade.

Em 1995, a cidade de São José dos Campos publicou duas antologias. Uma de contos e uma de poesia. Participei das duas. Da X Antologia Poética HELIO PINTO FERREIRA, e da VIII Antologia de Contos ALBERTO RENART com o conto “Uma angustiada espera”.

Mais tarde, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul publicou duas antologias poéticas. Ambas organizadas por Dilan Camargo. Uma em 2001 e outra em 2013. Nas duas tive poemas publicados.

Devo dizer que todas estas publicações me fizeram ser feliz com elas. Através delas, a Literatura me fez pertencer ao mundo, ao meu mundo, que é este, o mundo das palavras.

OS VIOLINISTAS

Quando fazia suas viagens para escrever seu excelente “Armas, germes e aço”, surpreendeu ao escritor Jared Diamond que havia na Namíbia uma rua chamada “Goering” numa homenagem a Heinrich Goering um dos líderes da colonização alemã daquela parte da África. O impressionante é que esse Goering foi um dos responsáveis pelo primeiro genocídio do século XX, o genocídio dos Hereros, povo que se revoltou contra a colonização alemã.

Ocorre que nada há de surpreendente em haver uma rua com este nome lá. A coisa mais natural do mundo é no fim das contas admirar nossos algozes. A maioria dos povos dominados acabaram por tomar como sua a cultura, os valores, as crenças daqueles que os dominaram e os oprimiram. É só olharmos para um exemplo: o terno e a gravata. Fazem parte da vestimenta “séria” e “elegante” em praticamente todo o planeta.

Nossa tendência em esquecer as maldades que nos são infligidas vem de casa. Todas as famílias tendem a por uma pedra sobre suas desavenças, suas torturas físicas e psicológicas e sobre as injustiças entre quatro paredes. Por fim, este comportamento acaba se transferindo para a sociedade e para a História.

O grande mal deste comportamento, esse de esquecer o que de mal nos foi feito, permite essa verdade filosófica: a de que a história sempre se repete.

O renascimento da intolerância, do fundamentalismo religioso e dos movimentos moralistas deviam nos causar horror por todo mal que já foi feito em seu nome. No entanto, não olhamos para trás. E, mais adiante, teremos que admitir que foi um grande erro. A divisão maniqueísta entre as pessoas, taxando uns e outros de mocinhos e bandidos de acordo com seus gostos, cores e amores, vai acabar em tragédia. O Estado Democrático está dominado pela mão pesada da ignorância e da violência.

Lembro bem do livro “Os violinistas” de Jurgen Mäss. Nele, dois meninos criam-se juntos estudando violino. São amigos apesar das diferentes origens. A música os une. Vão juntos para a orquestra de Berlim às vésperas dos nazistas tomarem o poder. Até que um deles, Carl, entra para a juventude hitlerista.

Vitimado pela lavagem cerebral do Fürh, Carl logo começa a ver no amigo, cujos pais são trabalhadores de fábrica e ativistas sindicais, os “defeitos de sua classe”. Incentivado pela organização e apoiado no sentimento de maior número, Carl começa a perseguir Heinz. As calúnias acabaram por retirar Heinz da orquestra. E a loucura vai num crescendo psicótico até o desfecho, quando Carl invade com a turba a casa da família de Heiz e, em êxtase, confisca seu violino e o incendeia no meio da rua.

Uma das frases marcantes dita por Carl: “a tua gente não merece tocar as músicas que a nossa criou”!

Não sei se o Brasil caminha exatamente para uma coisa assim. Mas é preciso dizer que a História, a Literatura e a Cultura estão repletas de avisos. Se escolhermos este caminho, o do messianismo político e da intolerância será uma opção consciente. E é obrigação de todos fazer estes alertas.

Ou deixamos tudo por isso mesmo, e damos logo nome de rua para o coronel Brilhante Ustra e nome de museu para o MBL.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 03/11/2017

O LADO NEGRO DO PARAÍSO

Não, não vou plagiar o enredo da nova novela da Globo, até porque não assisto. Mas o título é muito bom.  Dei uma mudadinha nele pra entrar num clima de “dark side”, mas paraíso é sempre um tema cativante. Por inalcançável, por inexistente, por ser uma ficção criada pelas boas – e más – intenções humanas. O paraíso é como o horizonte: podemos correr atrás dele, mas nunca o alcançaremos.

Como está fora do alcance, criamos mitos: há quem creia que a morte seja a linha que nos separa dele. Já que é tão difícil criar um paraíso na Terra por conta das imperfeições humanas, que se semeie um depois da morte. Mas, cá entre nós, não é nada provável. Se é que teria graça morar num. Já sentimos o tédio que abate àqueles que não têm nada pelo que lutar. Como ensinam os antigos: o ócio é o jardim do Diabo. Portanto: quem quer um paraíso desses?

E foi Eva quem teve a sacação: deu uma bicada numa “inocente maçã que, tão doce, úmida e eleita, nos tirou do paraíso” como cantou o poeta, e acabou com nossa inocência. E que belo gesto! Foi Eva quem nos livrou do ócio de ganhar tudo de mão beijada. Eva nos libertou de coçar o saco a eternidade inteira. Que mulher!

Não que não devamos buscar o paraíso. O problema é: qual paraíso? Um que nos oprima ou um que nos liberte? Um que nos faça entender a vida ou um que nos escravize? Um que nos permita viver nossa individualidade, ou que pouse a mão de um feitor divino e nos coloque os garrotes e as correntes de uma fé?

A visão de falsos paraísos faz a tragédia humana há milênios. As crenças humanas, a ingenuidade e a boa fé das pessoas, são pão quente nas mãos de facínoras. Claro que é do jogo da liberdade correr riscos. Então, ou deixamos de ser ingênuos, ou o paraíso sempre será mais uma praga do que um prazer. A crueldade está sempre presente: tanto às portas dos paraísos prontos, quanto nos chamados messiânicos para construir um ao custo de milhões de vidas. Não há dó nem piedade nas escadas que levam ao céu ou ao inferno.

Eva nos abriu as portas de diversos paraísos possíveis. Um machado de dois gumes. Comer da árvore do conhecimento, o que ela fez com avidez e gosto, se nos libertou do tédio, também colocou-nos na beira do abismo das graves decisões que a humanidade tem que tomar.

No ano 2000, cientistas franceses pegaram um embrião de uma coelha branca e implantaram em seu DNA um gene de uma água-viva verde fluorescente e criaram a primeira coelha fluorescente da história. Eva nos deu a petulância da possibilidade de brincar de deus.

Não sabemos ao certo o que fazer com a espada do conhecimento. Desde que a tiramos da bainha e a brandimos contra a ignorância, temos ao mesmo tempo pagado o pato dos excessos, da falta de controles, da destruição do planeta, planeta que é nossa casa e conforto.

Não nos demos conta ainda que a parte mais difícil, que foi cortar o cordão umbilical com o misticismo barato e sem lógica, já o fizemos. No entanto, continuamos dando oportunidades à criação de novos e falsos paraísos. Messias doentes e falsos profetas seguem extorquindo a crença pela TV em nome de paraísos.

Eva nos arrancou de um deles como uma mãe nos expulsa do útero, do seu aquário, e nos presenteou com o lado negro do paraíso: a liberdade e a vida para ser vivida! Viva Eva!

Agora, alguém sabe direito o que fazer com estes brinquedinhos que ela nos deu?

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 27/10/2017

A TUA VOZ

Eu queria calar tudo que já disse
e reescrever a única voz
que ainda faz sentido

A palavra que me inquieta
que chama a madrugada
e a me dá de presente
como um grito
Incontido

O som limpo de uma voz apaixonada
que quando me pronuncia me descobre
e eu passo a ser mar à vista e terra e eu e tudo

do nada

Eu só me reconheço
quando ela sussurra em meu ouvido
seu hálito cor de laranja
e lambe
o que fui ferido
dos meus pesadelos

É quando me torno seu hábito
na noite negra da vida

atado aos seus pelos
pela mesma ferida

É urgente, pois, que eu não partisse
antes de sua voz ressoar
todos os poemas
que eu ainda não disse.