VENDER A ALMA AO DIABO

Estes comércios entre o homem e o diabo existem na Literatura há séculos. É um imaginário religioso cuja presença na arte a faz ainda mais fantástica. O “Fausto” de Goethe é um dos melhores exemplos, mas não o único. E nestas histórias, o diabo aceita várias moedas. Gosta principalmente de almas. E o vendedor vende o que tem. Principalmente sua própria alma. Mas, às vezes, muda de moeda.

Em 1872 o escritor suíço Gottfried Keller publicou vários contos, um dos quais se chamava “A virgem e o diabo”, em que o protagonista promete a própria mulher ao diabo em troca de manter sua fortuna que gastava em obras de caridade. No final, com a ajuda da própria Virgem Maria, não entrega a “mercadoria”. Trair o diabo, só com parcerias de peso.

Vender-se ao diabo é um símbolo. O símbolo de alcançar o inalcançável, o difícil, a felicidade e a fama momentâneas ou a vida eterna. Sempre estamos insatisfeitos com o que temos e somos. E sempre há alguém disposto a vender-se ao vilão na ânsia de que dê mais certo do dar-se ao mocinho. Ainda mais quando ambos não existem.

Vivemos um tempo – o mesmo tempo há milênios – em que, para alguém, a gente tem que se vender. Para uns que se dizem do bem, via dízimo, e para outros, que se assumem do mal, via alma. E há os malandros, que arrecadam os dízimos, mas não entregam. O personagem de Keller ofereceu a esposa. O diabo até aceitou, mas no fim também não levou, apesar de ser escolado na arte de passar a perna.

Quem leu esta crônica até aqui talvez sussurre para que ninguém o ouça que pode ter sido um grande negócio o diabo ter perdido a proposta. “Fosse a minha, logo tomaria conta do inferno. O diabo ia perder todo seu domínio.”

Outro leitor talvez esteja se perguntando: “Como falo com o diabo?”

A Literatura faz juízo de valor das moedas de cada um. Há quem considere a alma um valor máximo, outros o amor. Outros, hectares de terras. Nós, do terceiro milênio, bitcoins e apartamentos em frente ao mar de Copacabana. Já Keller, uma esposa.

No conto em questão temos que levar em conta que o autor Gottfriend Keller nunca casou. Nunca teve uma parceira, uma cúmplice. Sua vida amorosa se resumiu a amores não correspondidos e prostitutas. Todas as mulheres pelas quais se apaixonou lhe deram um rotundo “não”. Também estava muito próximo da Inquisição que mal havia acabado e talvez pensasse em mulheres como bruxas. Neste caldo todo, criou um personagem que considerou a mulher o melhor que tinha a oferecer, e depois lutou para não entregar.

Nós, que nunca batemos na porta do diabo e nem ele na nossa, em verdade dizemos: nenhum de nós venderia nosso grande amor. E se tivéssemos que vender, por conta de desventuras que pudessem nos custar vida ou morte, como todo bom salafrário, não entregaríamos. Diríamos ao diabo: carimba por “12” e manda pro Serasa, mas ela tu não leva!

Enfim, tudo é Literatura. A realidade e a fantasia. E sermos capazes de nos ver nela é que faz da vida esta riqueza de não estarmos caminhando somente sobre a terra, mas também sobre as nuvens.

Se você não acredita nisso, de que a vida é o que ela é, mais aquilo que a gente imagina que ela seja, mais aquilo que nem nos passa pela cabeça, pergunte ao diabo. Ou à sua mulher. Os dois sabem.

 

Crônica publicada no Jornal Ibiá de 15/12/2017